Com a arrogância que o caracteriza e que ele, por defeito de carácter, confunde com autoridade, o Eng.º José Sócrates (consciente ou inconscientemente) incorre frequentemente na falácia da ignoratio elenchi ou conclusão irrelevante.
A falácia em questão caracteriza-se pala utilização de um argumento apto a provar determinada conclusão, para a pretensa prova de uma conclusão diferente.
Por exemplo, a justificação para a criação de um imposto específico e determinado é sustentada em premissas que demonstram, em abstracto, a necessidade de controlar o deficit das contas públicas, mas não a da criação daquele imposto particular. E aquelas premissas são apresentadas como se elas, por si mesmas, fossem razão suficiente, para a introdução do dito imposto. Logicamente, não são.
Ontem, José Sócrates apresentou um ambicioso programa de desburocratização da Administração Pública.
As premissas que fundamentam a conclusão da necessidade do combate à burocracia são evidentes e consensuais. Sócrates, como sempre, vai ilogicamente usá-las para justificar as suas concretas medidas particulares.
É muito duvidoso que a burocracia que infecta a nossa administração pública se possa combater por via legislativa. O problema é antes de mentalidade e as mentalidades não costumam mudar-se por decreto.
Com efeito, na sua relação com o cidadão, a administração pública parte sempre do pressuposto que aquele é um mentiroso compulsivo. Daí que, sistematicamente, se lhe exija a prova de que fala verdade.
Se um cônjuge intenta contra o outro uma acção de divórcio, a primeira coisa que tem que dar entrada no Tribunal é uma certidão de casamento, não vá dar-se o caso de ele estar a mentir e querer o divórcio sem sequer estar casado.
Se um cidadão pretende comprar o vulgaríssimo selo do imposto municipal de veículos, tem que exibir o livrete do carro, não vá dar-se o caso de não ter carro nenhum ou de estar a mentir em relação à cilindrada deste.
Se alguém pretende fazer uma escritura de habilitação de herdeiros, tem obrigatoriamente que a instruir com uma certidão de óbito, não vá acontecer andar alguém a proclamar-se herdeiro universal de um ricalhaço, com este ainda vivo e a reproduzir-se.
Repito: nas suas relações com os cidadãos, os organismos públicos arrancam sempre do pressuposto que aquele mente por sistema e há, por isso, que exigir-lhe a prova constante e imediata de tudo quanto afirma.
Claro está que, se o cidadão é mesmo apanhado a mentir, nada de grave acontece. Afinal, isso é apenas a prova de que o sistema tem razão de ser e está a funcionar.
José Sócrates decidiu atacar frontalmente este absurdo. Propõe-se fazê-lo por decreto e com argumentos falaciosos. É duvidoso que possar chegar assim a algum lado. Talvez o sistema tenha a sua razão de ser e talvez os portugueses, sejam, de facto, vigaristas irrecuperáveis.
Seja como for, por uma vez, Sócrates merece o benefício da dúvida. Por uma vez, merece ser apoiado sem reservas.
Mesmo por tipos como eu. Que o abominam.

4 lembraram-se de contestar:
Apoiar o manco do Socras?
Era o que mais faltava.
(a primeira coisa que me veio à ideia, em vez do que mais faltava, foi: até um porco se vinha!...)
(Mas, claro, isto não se pode - deve - escrever)
PBL,
O seu argumento envolve outra falácia. É um argumento ad hominem.
Este tema é muito interessante e o Funes toca em muitos pontos interessantes. Tentarei comentar apenas duas coisas para não fazer um comentário maior doq ue o post!!:
1º PM, Sócrates - de uma forma geral tem vindo a surpreender-me positivamente. Sem ter aquela graça ou aquele poder de persuasão de um bom orador, que definitivamente não é, faz um discurso firme, seguro, estudado, direccionado para o seu objectivo (que pode não ser o nosso) e, coisa pouco comum nos seus colegas de partido, não é mal educado. Penso que ele tem de facto um problema com esta sua forma de discurso e com a sua presença, a saber: a sua firmeza e determinação atraiçoam-no e fazem-no resvalar na direcção dessa arrogância de que tanto se fala. É um estilo que ele adoptou para o seu papel, e quanto a mim, não está mal. Induz a ideia de segurança, de quem sabe o que está a fazer e a dizer, o que não está mal, atendendo ao sentimento de insegurança no futuro e na própria política e quem a exerce; induz a ideia de quem estudou o dossier e pensou numa solução,o que é verdade, embora possa não apresentar a melhor e isto para mim também não está mal... Ele trabalha. E isto, agrada-me.Induz, induz , induz, o que não é mau. Talvez daqui a um ou dois anos me arrependa de pensar assim, mas neste momento é o que me parece...
2ºA burocracia. Aqui creio que tem razão. O exagero é inimigo da eficácia e é absurdo. A meu ver o Funes toca num ponto que é o ponto: "a burocracia que infecta a nossa administração pública se possa combater por via legislativa. O problema é antes de mentalidade e as mentalidades não costumam mudar-se por decreto." Não sei se percebo bem o que entende por "mentalidades"... Do meu ponto de vista, as dez medidas para desburocratização apresentadas são bastante interessantes, mas como diz, por si só, não vão resolver o problema.São mais um remendo na manta. A grande questão está talvez, antes da necessidade de desburocratização e consiste no facto de que há legislação, mas não há verificação da aplicação e cumprimento das leis.E tendencialmente, se pudermos, encetamos a fuga;o Funes fala do pressuposto do mentiroso compulsivo e eu percebo, mas não sei que tipo de critério poderia fazer justiça se não for este. O bom senso? O problema é que se, por exemplo, alguém descobre uma forma de fugir a não sei o quê no IRS, ou uma lacuna que permite uma fuga, em vez de se calar e sentir vergonha em contar, não, sente é orgulho em contar aos colegas e amigos a esperteza de que foi capaz (creio que todos nós conhecemos discursos deste género); o problema é que efectivamente, as operações STOP comprovam que um número muito significativo de pessoas não tem, não usa, seguro automóvel, por exemplo. POr fim: fiscalizar e penalizar, não apenas desburocratizar. Será?
errata pouco relevante:
bem, releio o meu comentário e sou obrigada a voltar atrás para dizer que onde se lê: "coisa pouco comum nos seus colegas de partido, não é mal educado"; deve ler-se: "coisa pouco comum nos seus colegas de partido, não é tão mal educado".
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