Parto de uma constatação: o Porto, nos últimos 30 anos, decaiu significativamente. Prossigo com um sentimento: este facto desagrada-me de sobremaneira. Natural é, pois, que me questione das razões de tal decadência. Obviamente, qualquer explicação que procure centrar-se num uma única causa falhará o alvo. Mas uma me parece sobrepor-se às outras e, por isso, a destaco: a decadência do Porto é consequência directa e imediata da decadência das suas elites. Portanto, buscar o ocaso do Porto é buscar o ocaso dessas elites.
Há trinta ou quarenta anos, na agonia do salazarismo, o país era um imenso deserto provinciano.
Com a sua tradição burguesa, com a herança comercial dos ingleses do vinho do Porto ainda marcante, com o seu clima do Norte da Europa, o Porto era, de certo modo, a menos provinciana das cidades portuguesas. Não era tão cosmopolita como Lisboa, certamente, mas a sua classe média era mais europeia, mais dinâmica, mais produtiva, mais viva.
Com a sua tradição burguesa, com a herança comercial dos ingleses do vinho do Porto ainda marcante, com o seu clima do Norte da Europa, o Porto era, de certo modo, a menos provinciana das cidades portuguesas. Não era tão cosmopolita como Lisboa, certamente, mas a sua classe média era mais europeia, mais dinâmica, mais produtiva, mais viva.
O seu modelo eram as cidades flamengas do Norte, não a lânguida, dolente e africana Lisboa, com a sua vida marcada ao ritmo do movimento imperial dos paquetes “Infante D. Henrique” e “Príncipe Perfeito”, no seu lento vaivém de e para Luanda e Lourenço Marques.
Na economia, Cupertino de Miranda, Pinto de Magalhães e não sei quantos comendadores têxteis do Norte lançavam as bases de uma estrutura empresarial que rasgava a modernidade possível, num contexto ainda marcado pelo domínio dos grupos tipo CUF, engordados à sombra do espartilho da legislação do condicionamento industrial.
No pensamento, uma escola nova, despertada por uma carta de António Ferreira Gomes a Salazar, traçava as linhas alternativas (que, pessoalmente, não admiro) a um catolicismo reaccionário, ainda oficial, e a um já abstruso marxismo-leninismo-maoismo, de subscrição obrigatória nos meios universitários.
Com a revolução de Abril, com a descolonização e, sobretudo, com a adesão à União Europeia, Lisboa desafricanizou-se e eurocentrou-se.
E como capital que era, sede do poder central, passou, naturalmente, a ser, do ponto de vista funcional e burocrático, tomada pela UE como a destinatária primeira das suas políticas.
Estranhamente, as elites portuenses – que já eram tradicionalmente europeizantes – ficaram deslumbradas com recém adquirida vertente europeia de Lisboa.
E invejosas.
Disparatadamente, o seu modelo deixou de ser a cidade média do Norte da Europa e passou a ser a capital. O Porto começou a imitar Lisboa. Começou a querer ser como Lisboa.
Lisboa tinha um teatro nacional? O Porto também queria um.
Lisboa tinha uma ponte nova? O Porto também reclamava o direito a uma.
Lisboa tinha uma Expo? O Porto queria uma capital da cultura.
Lisboa tinha a Presidência da UE? O Porto tinha que ter a cimeira Ibero-americana.
Lisboa tinha um metro? O Porto tinha que ter um metro.
Nada nem a ninguém interessavam as especificidades do Porto e as suas reais necessidades. Tudo passou a resumir-se ao simples chavão “se Lisboa tem, o Porto também tem que ter”. No Porto, assumiu-se que Lisboa era a medida do Porto.
A imitação é sempre pior que o original. E pior fica, quando a medida do que se faz não é a qualidade intrínseca do que se faz, mas a mera comparação com o rival que se imita. Consciente disto, a gente que no Porto risca começou a queixar-se de Lisboa. Lisboa fazia mais e melhor, porque explorava o Norte, porque o dinheiro era todo gasto na capital, porque o Porto era vítima do centralismo lisboeta, porque assim e porque assado…
Não lhe ocorreu que Lisboa fazia melhor, porque fazia o que lhe competia e o Porto fazia pior, porque se limitava a imitá-la, fazendo mal. E, fazendo mal, justificava menos o favor, vendo fugir-lhe progressivamente os recursos e criando um sistema que indefinidamente se re-alimentava e re-alimenta ainda.
Num movimento neurótico natural que a psicologia deve ser capaz de explicar, a elite portuense, de forma autoflagelatória, passou a reiterar o processo de vitimização/comparação, vivendo permanentemente do lamento, da queixinha e da autocomiseração, estendo-os mesmo aos seus êxitos, medidos exclusivamente pela bitola de Lisboa.
As vitórias do Futebol Clube do Porto, por exemplo, nunca são vitórias do Futebol Clube do Porto, mas derrotas do Benfica.
A última revista da “Metro do Porto”, num outro exemplo, assegura ufana que o metro do Porto tem mais quilómetros do que o metro de Lisboa e cada quilómetro custou menos não sei quantos euros do que o de Lisboa.
No fundo, tudo se passa como se não houvesse problema nenhum em o FCP descer à segunda divisão, desde que o Benfica descesse à terceira; ou que a construção do metro do Porto se traduzisse num esbanjamento irracional de dinheiros públicos, desde que o de Lisboa envolvesse um esbanjamento ainda maior.
Coimbra, deslumbrada com a sua secular universidade, entrou em decadência, a olhar para o umbigo.
O Porto, deslumbrado com a europeização de Lisboa, entrou em decadência, a imitar a capital e a esquecer-se que já era uma cidade europeia, muito antes de Lisboa o ser.

24 lembraram-se de contestar:
Nem mais...
Ganda post Funes!!!!
5*****
:)
A análise não é exaustiva e acho que, a nível sociológico, se poderia ir mais longe referindo as prioridades do Portuense e as do Lisboeta enquanto cidadão, qual a sua forma de se comportar no trabalho e no lazer e como o desemprego assolou o Porto (a estagnação da indústria não tem, como em Lx, um peso do outro lado da balança vestido de funcionalismo público).
De qualquer forma é um texto interessantíssimo que mostra como o Funes, ao contrário de alguns amigos meus (portuenses, tripeiros e portistas) não se limita a dizer que o Porto é o maior e Lisboa deve arder mas, pessoa inteligente que é, reconhece a decadência da cidade que o adoptou e mostra que gostaria (gosta) de a ajudar a contrariá-la.
Parece-me lógico que, enquanto os habitantes (nascidos e/ou criados no Porto) continuarem a fazer de conta que não se passa nada, a cidade vai afundar-se (com rio ou sem rio). Enquanto ruas lindíssimas do Porto deixarem que as suas belas casas se degradem, desabitadas, e com custos impossíveis de apelar a novos ocupantes, vamos continuar a perder a turma do ANIKI BÓBÓ para os gangs de bonés e argola.
Vá lá que são loiros porque, como alguns gostam de dizer, em Lisboa é só pretos.
Este texto emudece qualquer pessoa seja do norte ou do sul do país, pelo menos durante alguns segundos. É efectivamente, como diz o TZL uma autocrítica severa, característica pouco comum não apenas nos portuenses, mas nos portugueses. O texto e o seu autor são admiráveis.
De qualquer forma, num outro registo, tenho de fazer aqui algum contrapeso. Passei o fim de semana passado no Porto. O Porto está lindíssimo! Quem ainda não visitou o Porto depois das obras, deve fazê-lo, porque vale imenso a pena. Há zonas quase irreconhecíveis. Com alguma ironia em algumas zonas comentava com o meu marido que parecíamos um país rico! O centro, as praças, a marginal, a Foz, etc, sofreram alterações e arranjos para melhor. Maior amplitude nos espaços, mais luminosidade, alguns toques de modernidade, mais espaços verdes cuidados e frequentáveis, uma linha de eléctrico invejável, um Metro maioritariamente à superfície (um alívio), enfim pareceu-me não apenas melhor mas também com bom gosto. O Porto tem ainda um novo aeroporto lindíssimo (no qual tirei várias fotografias, duas das quais estão no meu blogue) com Metro à porta. É perfeito. O Porto tem uma oferta cultural boa e na minha modestíssima opinião, o Rivoli tal como estava não faz falta nenhuma. O Porto recomenda-se. O sacrifício de anos e anos (quantos anos?) dos habitantes do POrto é louvável. Não faço ideia se o lindíssimo resultado final supera as amarguras da espera, mas a cidade está acolhedora e merece visitas várias.
Se esquecermos o horror inimaginável das obras e tudo o que as envolveu (e ainda envolve), apetece dizer que valeu muito a pena! O Porto tem na sua face renovada motivos de orgulho.
Caro amigo,
O seu texto não diz nada de novo. E o que diz é para ilibar a capital. Recomendo a leitura do Nortugal.Info, Baixa do Porto, Rui Moreira ou os Olhares Cruzados sobre o Porto. Irá aprender muito mais sobre o assunto.
Oh oh oh... Rui Moreira, anónimo da 00:10?!
São precisamente personagens como essa que fomentam (por chico-espertismo) a triste postura que o Porto adopta perante Lisboa!
Só não posso concordar com Funes quando fala na elite portuense. O Porto tem gente bem melhor do que os responsáveis por essa auto-comiseração permanente...
Sinto-me inclinado a concordar com a essência do post- a decadência do Porto é a decadência das suas elites. Já quanto aos detalhes que ilustram essa tese, e mesmo quanto às causas dessa decadência, assim de repente sinto-me inclinado a discordar com a sua opinião. Vou ver se penso um bocadinho no assunto.
Parece-me que este texto vem na sequência das recentes afirmações do Dr. Daniel Bessa - estarei certo? Elas também me deixaram a pensar neste fim de semana. Irritaram-me.
No meu comentário queria ter escrito "inclinado a discordar da sua opinião". Escrevi outra parvoíce qualquer. É a decadência...
Um estrangeiro que leia o seu post e não esteja informado sobre a realidade político administrativa de Portugal é capaz de ficar convencido e concordar com as suas conclusões. Quem cá vive verá as coisas doutra maneira. Lendo o seu post julgar-se-á que as cidades e regiões têm verdadeira autonomia e capacidade orçamental e política para determinar o seu próprio modelo de desenvolvimento e não estão dependentes dos humores do poder central até para a mais insignificante estrada regional. Quem ler o seu post também não desconfiará que o governo central tem funcionado na prática como um verdadeiro governo regional de Lisboa e Vale do Tejo e, ainda mais grave, em muitas ocasiões como a verdadeira camara municipal da capital. Qualquer pessoa com básicos conhecimentos de macroeconomia sabe a influência que o "factor G", isto é, o consumo do estado e o investimento público em infraestruturas tem no crescimento do PIB. Negar isso só pode ser entendido numa das habituais tentativas de justificar a dominação que as oligarquias que na capital dominam o estado mantêm sobre o resto do país.
Numa coisa tem razão: as chamadas "elites" do Porto imitaram Lisboa e naquilo que ela tem de pior: pelam-se por um empregozinho de funcionário - em Lisboa de preferência. A solução não está em textos deste género, que no fundo só provam a eficácia do sistema de dominação cultural e mental que o sistema centralista exerce sobre muito boa gente. A solução está na ruptura com este sistema e assaltar o poder - Literalmente! Só para finalizar: Lisboa também não está assim tão bem.
TZL,
Tem toda a razão. É evidente que, sociologicamente, Lisboa é, ao contrário do Porto, uma cidade de serviços, de funcionários públicos. Por isso mesmo que é a capital. O que se passa é que, bem à maneira portuense, o meu post não pretendia ser uma análise científica da realidade, mas mais uma introspecção psicológica de mim próprio, um queixume, se quiser.
TR,
Estou absolutamente de acordo consigo. O Porto está muito mais bonito. Mas esta capa não esconde a decadência.
Anónimo das 00:10h,
Claro que o meu post não diz nada de novo. Onde é que foi buscar essa ideia?
Se quiser, a primeira vez que ouvi teses semelhantes às expostas foi numa conferência de João Salgueiro na Católica, há mais de 10 anos.
De qualquer modo, suspeitando eu que V. Ex.ª é a "voz da consciência" de um post anterior, registo com agrado o fascínio que este blog está a exercer sobre si.
Anónimo nominado,
Não duvido da gente boa de grande qualidade que existe no Porto (basta pensar na sua escola de arquitectura, p. ex.). O problema é que quem marca a agenda, quem dá a imagem do Porto, são os tais autocomiserantes.
Patchouly,
Pode reflectir, mas não me obrigue ao mesmo exercício de retractação a que me obrigou da última vez que reflectiu.
António Alves,
Sem querer retirar-lhe importância (é um facto que o centralismo lisboeta tem prejudicado o país e tem prejudicado Lisboa que, desse modo, se terceiro-mundializa), o seu comentário omite um facto: o centralismo que refere existiu de forma muito mais acentuada noutros momentos históricos e nessa altura isso não impediu o Porto de se afirmar.
É verdade que não é só o Porto que está decadente. É o país e, nessa medida, tem inteira razão, quando afirma que Lisboa também não está assim tão bem. Mas esse é um problema, para um outro post. O problema aqui é que dentro da decadência global do país, o Porto cai mais do que a média geral.
Bom dia Funes!
A decadencia do Porto nao acompanhará a decadencia do próprio pais?... digo eu , bá! O Porto, assim como outras zonas do pais, é vitima da mentalidade lusa. Apenas como exercicio mental pense-se: como seria o Porto e Portugal no geral geridos pela tenacidade espanhola?
Bjicos
É verdade: o centralismo sempre existiu. Mas nunca como nos últimos 20 anos teve tanto dinheiro, com a excepção dos tempos do rei merceeiro. E isso faz toda a diferença. Também já há séculos que não era levada à prática uma estratégia tão deliberada para priviligiar uma única região. É a famosa estratégia do farol de Alexandria que supostamente iluminaria o mundo.
«Acho que Portugal não tem dimensão para ter um desenvolvimento multipolar. Por isso deveremos apostar tudo numa única região». Cavaco Silva, 1989.
O centralismo, por falta de meios limitava-se a ser político, mas mesmo assim em menor grau do que hoje. Hoje, desde orgãos de administração descentralizada que existiam no antes 25 A até às estruturas das empresas públicas, tudo foi sugado para Lisboa. Empresas como os antigos TLP/PT, EDP, etc. tinham estruturas de gestão regional de nível superior no Porto. Hoje em dia resta a gestão de primeiro nível operacional. Tudo o que cheire a emprego qualificado é estrategicamente anulado no Porto e transferido para Lisboa. Lisboa é uma cidade pequena a nível europeu e precisa de ganhar massa crítica tanto demográfica como económica para poder realizar os sonhos de grandeza das suas oligarquias. Para isso não se importa de secar o resto do país tal como um eucalipto. Contemporizar com isto é criminoso.
Cumprimentos.
No geral concordo com o espírito e a mensagem do post. Traduz uma maneira de ser portuense pela positiva que é a única louvável. Isto não significa que certos contraditores não tenham avançado argumentos de algum peso (com excepção da Rosário Andrade que descarrilou no disparate). Mas esses argumentos não invalidam a tese básica: o Porto é uma cidade hanseática,que não deve querer ser capital nem cidade de funcionalismo e serviços, mas sim parecer-se com as cidades do norte atlântico da Europa, comercial,dinâmica, empreendedora e autónoma, sem que para isso precise de chorar pelos apoios do Estado. E sem complexos perante nada ou ninguém, que a tornam agressiva e antipática.
1- Adenda ao meu comentário anterior: sim, foram as declarações de Daniel Bessa que motivaram este post. Mais concretamente, foi a referência a essas declarações feita por RPS no "Fado Falado".
2- Sinceramente, Rosário, não acredito na tal tenacidade espanhola e quer-me parecer que o actual crescimento de Espanha é meramente conjuntural. Não tenho a certeza que seja sustentado.
Uma coisa é certa, no entanto, Barcelona não seria Barcelona se se limitasse a querer ser igual a Madrid.
3- António Alves,
Mais uma vez lhe reconheço alguma razão naquilo que diz. Mas o tal centralismo lisboeta asfixiante é fruto de um sistema autofágico de que a primeira vítima são os próprios lisboetas.
Se a classe alta e média alta vive em Lisboa bastante bem, o grosso da população, as classes média e baixa têm uma qualidade de vida medonha (basta pensar nas horas a que têm que se levantar para chegar ao emprego às 9 e as horas que passam em filas dentro de um carro ou de transportes públicos), muito pior do que a qualidade de vida das mesmas classes em qualquer cidade do interior.
O post é muito bom e o nível dos comentários também. Espero que o meu não desmereça...
A ambição do Porto é ser como Barcelona: o FCP quer ser como o FC Barcelona, não um clube mas uma "bandeira" da região, uma "segunda cidade" que pede meças em tudo à capital. Trata-se de sonho impossível que, na constatação da sua impossibilidade, paraliza o Porto e o impede de fazer sequer o ... possível.
Mas temos que recordar que o Porto geograficamente é uma pequena cidade: do Freixo à Foz são meia dúzia de Km, não é como Lisboa que para ir da Expo a Algés nunca mais se chega...
Portanto, quando aqui se fala de Porto, deve-se entender que se fala da região que deveria ser liderada pela cidade do Porto. Mas não é ! Tirando Fernando Gomes, com todos os seus defeitos, o Porto não teve nos últimos trinta anos (pelo menos) um presidente de geito. O Porto viu Matosinhos crescer e desenvolver-se, viu Gaia do outro lado crescer, viu a Maia costruir infraestruturas indusriais, viu até o Major colocar Gondomar no mapa. Viu tudo e não fez nada. Temos até um presidente que faz gala em governar a pensar mais nos bairros sociais que na região que expressamente diz que não lhe interessa. O declínio da cidade é não só obra de um destino madraço (o fim do textil na Europa, o feroz centralismo da capital, tantas vezes protagonizado por gente de fora de Lisboa) como, em grande parte, foi um hara kiri !
PS Tenho para mim que, simbolicamente, o destino do Porto se traçou na OPA do BCP sobre o BPA; ambos os bancos tinham sido criados no Porto, mas já na altura Jardim Gonçalves tinha "levado" o BCP para Lisboa. Um grupo de empresários do Norte tinha organizado uma espécie de "cooperativa de ricos do Norte" para comprar o banco. Falharam com estrondo, dando de si o triste espectáculo de comadres a regatear.
PS1 É verdade, como diz que TR, que o Porto está lindo. Aliás, perdoem-me, mas o Porto sempre foi lindo, mas agora está cuidado. Pois saiba TR que as pessoas que, genericamente, puseram o Porto assim (genericamente, a equipa da Porto 2001) são aqui quase diariamente insultadas e acusadas de, entre outras maldades, descaracterizarem a cidade. É preciso vir alguém de fora dizer que a cidade ficou muito melhor...
Por muito que me custe admitir, não é só o Porto que está decadente, mas o país inteiro.
As regiões do interior têm televisão e internet, dois exemplos de capitalismo, mas as pessoas estão tristes, depressivas e desempregadas...
No litoral o sentimento é o mesmo.
Estamos todos desanimados e o país entrou em depressão clínica profunda. Impotente, é como me sinto. Há por aí alguém que sinta o mesmo?
Parabéns pelo clarividente post!
Bem, parece que há unanimidade no diagnóstico da decadência do Porto.
Eu não vejo decadência nenhuma.
Comparo o Porto da minha adolescência de há 25 anos com o Porto de hoje e vejo uma cidade completamente diferente e essa diferença é extraordinariamente positiva.
O Porto é hoje uma cidade relativamente bem organizada em termos de território, com excelentes meios de comunicação, com um tecido económico equilibrado para a a sua reduzida dimensão, fenómenos de exclusão social ainda assim pouco significativos,sem problemas relevantes de segurança e criminalidade, com um plano coerente de recuperação do património edifificado em execução,
com uma muito razoável oferta de serviços culturais e desportivos.
Eu gosto do Porto e de viver neste Porto.
Tenho fundadas esperanças de continuar a gostar.
Ao ler-vos, veio-me à ideia o Staler & Waldorf.
Ó PBL (agora sem o Dr., de que fui gentilmente dispensado),
Mas como é V.ª Ex.ª havia de ver a decadência do Porto, se não foi capaz de ver a da América.
Às vezes - poucas, é certo - V. tem piada.
(de modo igualmente magnanmo, também o dispenso de me tratar por V. Exa.. Mas lá porque lhe dei a mão, não pense que me vai tomar o braço e começar cá com itimidades.)
“não a lânguida, dolente e africana Lisboa”
Lisboa é uma cidade africana, a maior ameaça ao Porto até será essa africanização, basta vermos que o número de africanos no Porto aumenta de dia para dia, não tarda o Porto será tal como Lisboa uma cidade de africanos.
Lisboa com a descolonização não se europeizou, africanizou-se ainda mais.
Quanto à elite portuense, infelizmente e dando o nome aos bois, é uma elite de vassalos a Lisboa. A unica coisa que podemos discutir é, qual deles será o maior vassalo?
“Lisboa fazia mais e melhor, porque explorava o Norte, porque o dinheiro era todo gasto na capital”
A brincar a brincar, aqui não andaste muito longe da verdade!
Há muitos seculos que ninguem tem coragem de defender o Porto nem o Norte de Portugal, e quando alguem timidamente defender o Porto e o Norte, então o "sistema" trata de lhe fazer a cama.
Caro Funes, permita-me fazer um comentário a uma expressão do Sr. Dr. PBL!
Diz ele sobre o Porto: "fenómenos de exclusão social ainda assim pouco significativos".
Quero eu lembrar-lhe que mesmo ao lado da Foz elitista existe uma coisa chamada Bairro do Aleixo e outra chamada Bairro da Pasteleira.
Será que o Sr. Dr. PBL só passa nas avenidas e nem sequer olha para os lados?
Não se zangue, Maria Papoila.
Asseguro-lhe que não passo só nas avenidas.
Já visitei todos os bairros sociais do Porto (incluindo Aleixo, S. João de Deus, Cerco e tal) e passo de quando em vez por alguns - obviamente de carro - para ver como vão as coisas.
Interesso-me por isso.
São manias.
É uma das manias que partilho com Rui Rio.
O Aleixo e o S. João de Deus são, efectivamente, exemplos de degradação humana ao mais alto nível, mas é preciso ver que isso acontece essencialmente devido ao tráfico e consumo de heroína.
Não é a cocaína, não é o haxixe, é a heroína.
Os que estão fora do círculo da castanha - e são a larga maioria -, são pessoas muito modestas, é certo, algumas das quais no limiar da pobreza, mas ainda assim vivem com alguma dignidade.
Vá à Pasteleira, ao Viso, a Aldoar, ao próprio Cerco.
A meu ver, os problemas mais graves de exclusão social não estão tanto nos bairros, mas nas ilhas e em alguns edifícios muito degradados. Em S. Vítor, em Cedofeita, na Boavista, na Sé, vive gente muito pobre, muito envelhecida, praticamente sem ajuda de ninguém, em situações humanas verdadeiramente dramáticas.
Dou-lhe a minha palavra de honra que conheço bem essa realidade e que me precoupo muito com ela.
Aquilo que eu escrevi acima significava apenas que no Porto não há aquilo que se vê em Lisboa, com gigantescos bairros de lata, onde vivem dezenas de milhar de pessoas, em condições infra-humanas.
Mesmo em termos relativos, creio que não há comparação possível.
Por isso dizia que os fenómenos de exclusão social no Porto são, ainda assim, pouco significativos.
Admito que estas palavras, só por si, sejam demasiado frias e possam parecer cruéis.
Compreendo, por isso, a sua indignação.
Mas mantenho o que disse.
O comentário anterior é inteligente.
De certeza que não foi o PBL a escrevê-lo.
Caro PBL:
Tenho para mim que a decadência não se mede segundo o consumo de drogas. Mede-se pelas miúdas de 15 anos que engravidam para receber apoio monetário do Estado, pelos miúdos ranhosos e mal nutridos que chegam da escola e não têm ninguém em casa para os acompanhar e pelas senhoras de bata e chinelos que esticam o orçamento e ainda por cima apanham dos maridos que passaram o dia a gastar o parco dinheiro numa tasca.
Passar na Torre 1 do Aleixo não me impressiona assim tanto. Toxicodependentes sempre houve e vai haver. Impressionam-me, isso sim, as pessoas de bem, que mesmo aliciadas, não se aproximam do negócio da droga e vivem na miséria quando ali ao lado o vizinho até nem se importava de as ter como auxiliares do tráfico e de lhes melhorar as condições de vida.É claro que quando falo nos bairros junto à Foz apenas o faço a título de exemplo, porque a exclusão social está por toda a cidade, desde os idosos que dormem à porta dos bancos aos arrumadores que pedem a moeda para a "sopa".
A decadência não se mede em quantidade, mede-se em humanidade.
E por favor, leia de novo o post que Funes escreveu e pare de comparar o Porto com Lisboa.O facto de a exclusão social não ser tão evidente a Norte não nos faz melhores nem piores, apenas iguais, porque ela existe e é grave. Isto já para não falar na pobreza escondida que cada vez mais ganha "clientes", porque o Porto, tal como o resto do país, está decadente, cada vez mais pobre e triste.
Maria Paoila dixit:
"A decadência não se mede em quantidade, mede-se em humanidade."
Precisamente por isso é que admiti que a minha expressão foi cruel.
Mas eu aceito viver com uma certa crueldade, para tentar garantir algum grau de objectividade.
Esse esforço na crueldade (para prosseguir com objectividade) obriga-me a ver que, hoje, os fénomenos de exclusão no Porto são menores do que eram no passado e não assumem uma relevância assustadora.
Há menos ilhas, há melhores condições de vida nos bairros, e, começa-se agora a tratar com seriedade do problema da recuperação da Baixa e Zona Histórica.
Está ultima questão é, a meu ver, determinante para resolver muitos dos problemas sociais que afectam essas áreas.
Vejo que não concorda comigo, mas não tenho números para lhe contrapor.
Não lhe posso dizer se a percentagem de pessoas que vivem abaixo de limiar de pobreza subiu ou desceu nos últimos anos, a partir de um fonte credível.
Tenho, por isso, de admitir que esta minha opinião é mais uma impressão pouco objectiva (e,apesar disso, definitivamente, cruel).
Como diz, a decadência não se mede em quantidade, mede-se em humanidade.
Enfim, é a vida...
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