2008-09-06

Um horror revisitado

Quando surgiram, pouco depois da extinção dos dinossauros, os ABBA assumiram-se imediatamen- te como uma das mani- festações mais arrepian- tes de toda a criação musical humana.
Não por acaso, lançaram-se num Festival Eurovisão da Canção, o espaço desde a primeira hora sonhado como o paraíso do horror ao bom gosto.
Depois, passaram uns anos a incomodar-nos, a espalhar o vómito e a cacofonia. Por fim, ouviu-se dizer que as gajas do grupo se tinham cansado de sustentar os gajos do grupo e o grupo desapareceu, remetido na memória dos povos para o olvido incómodo dos pesadelos acabados. Nunca mais se ouviu falar dos ABBA.
O muro de Berlim caiu e o mundo acreditou que estava próximo o fim da História e o advento da perpétua felicidade.
Alguns anos depois, cansada dos pinotes, com as mamas a cair, depois do fetiche dos corpetes e dos bullet bras ter dado o que tinha a dar, a comercial e irritante Madonna decidiu manter-se na mó de cima, fazendo arqueologia. Foi ao sótão do vinil, retirou de lá os únicos dois segundos de qualquer coisa parecida com música que os ABBA tinham conseguido compor e embrulhou-os nos seus próprios estrépitos e chios.
Foi um sucesso. O mundo tinha descoberto que afinal a queda do muro de Berlim não tinha trazido a felicidade a ninguém, que o fundamentalismo islâmico era pior que o comunismo, que o mundo estava mais perigoso do que no tempo da guerra fria. Por uma espécie de pensamento mágico e supersticioso, as pessoas começaram a acreditar que talvez a desordem do mundo fosse um aviso dos deuses; que talvez fosse um sinal aos homens, para que não esquecessem a necessidade de os honrar com sacrifícios propiciatórios. Na senda desta crença, generalizou-se a ideia de que ouvir os ABBA talvez fosse o caminho adequado, para repor a velha ordem e restabelecer a paz no mundo.
Sempre pronta a repor caminhos, quando os caminhos prometem dinheiro, a máquina de Hollywood encarregou-se da tarefa. E com o desperdício lamentável do talento de Meryl Streep e uma colossal campanha publicitária, Mamma Mia e os ABBA aí estão de novo. Tão medonhos e arrepiantes como sempre.
Felizmente, a família vive em harmonia e conseguimos um acordo: na sala 4 passa Wall-E e o miúdo recusa-se a acompanhar a mãe e a miúda na nostalgia sacrificial de Mamma Mia.

13 lembraram-se de contestar:

privada disse...

percebe agora a importancia de sermos congelados

jorge c. disse...

Gostou do wall-e? Eu gostei muito, mas aqueles finais na animação têm de ser repensados. Torna-se demasiado banal até mesmo para uma criança.

privada disse...

vamos embora já começaram os aviões, oupa Porto, oupa

jg disse...

E os miúdos não podem gostar de ir ver as putas das avionetas?!!
A massacar a canalha com uma fita sobre uma lata animada...

pbl disse...

Não seria melhor ter escrito: Ontem fomos ao cinema. Eu e o puto, ver o Wall-E. Madame Funes e a menina, o Mamma Mia.
muito gosta este gajo de complicar a vida.
Fosga-se!...

(diz-me quem viu, que Funes deambulava, h´ºa instantes, no Cais de Gaia, de nariz no ar, meio aturdido...)

Funes, o memorioso disse...

Diz quem viu que PBL gingava hoje de manhã o rabo no "centro Comercial Londres, na Senhora da Hora, a trautear: "Mamma mia, Oh Oh, here I go again"

pbl disse...

E não estava fofinho?
Estava!

PATRICIA M. disse...

PBL, ai eh que esta o genio do Funes, como transformar um ato quase banal de ir ao cinema em um post magnifico.

(vejam a cena: Patricia curva-se 3 vezes ao talento superior de Funes)

PATRICIA M. disse...

Mas, e agora vem o comentario mesmo, depois de ter prestado a habitual vassalagem ao Funes...

Eu e o Barba temos um acordo quase tao bom quanto o de voces: aqui em casa eh um filme americano por um filme frances/iraniano/alemao/europeu/esquisito/pseudo-artistico.

Mas, como os 2 filmes no caso eram hollywoodianos, nao fazia sentido mesmo assistir a ambos toda a familia ne.

pbl disse...

Ora, ora, Patrícia, o génio do Funes...
O Funes é um reconhecido morcão.

maria mazona disse...

Se tivesse que optar entre o aplaudir do ressurgimento dos dinossauros e as debandadas de alucinados eufóricos a acorrer às margens do Douro, apenas para beneficiar de uns atropelos e apalpões e olhar boquiabertos sujeitos a entrar-se-lhes uma daquelas moscas que ganharam asas, não se me figurariam dúvidas.

claras manhãs disse...

OH Funes!

e agora que já viu o WALL-E, deve ter ficado na dúvida se o Mamma Mia não seria melhor
diga lá a verdadinha

privada disse...

Oh Maria Mazona afinal a menina não é a minha querida e saudosa Saphou , enganou-me em 2 ou 3 post