2010-07-17

Da tragédia em modo neo-realista

Um pouco mais velhas do que eu, tinham, em 1970, catorze anos e a 4.ª classe.
O seu destino expectável era a lavoura, o trabalho no duro no campo e o trabalho duro de parir e educar os filhos que Deus fosse servido enviar-lhes.
Se tivessem boa apresentação, podiam sonhar com a casa de uma senhora de Braga ou do Porto para onde pudessem ir servir; se tivessem coragem, podiam sonhar com a sorte em França, na Alemanha, na América ou no Canadá.
Em 27 de Julho, morreu António de Oliveira Salazar e o Verão tornou-se mais azul. Em Outubro, a fábrica abriu.
Foram para lá, invejadas pelas outras, as que não tinham catorze anos nem a 4.ª classe. E só tinham filhos e o rosto cansado do trabalho duro de parir.
Os patrões mantinham-se distantes e falavam uma língua estrangeira que não compreendiam. Mas elas admiravam-nos e gostavam deles. Eram boas pessoas, pagavam-lhes bem, tratavam-nas com respeito e não lhes gritavam nem lhes batiam, como em casa o pai, nas noites de álcool e revolta, que eram todas as noites.
Conheceram na fábrica o colega de trabalho. Cruzaram com ele o olhar provocante e corado das seis da tarde, a caminho da paragem da camioneta, rindo muito, de excitação e vergonha. Atrás de um tear, receberam às escondidas o primeiro beijo.
Eram felizes.
Veio o 25 de Abril e casaram.
Generosa, a administração mandou construir um coberto novo para as motorizadas.
-
- Vinte mil euros, senhor doutor? Quanto é vinte mil euros? Quatro mil contos? O que é que eu faço com quatro mil contos? Tenho três filhos e o meu marido está desempregado. Tenho 54 anos. Quem é que me quer para trabalhar? Eu não sei fazer mais nada e as fábricas estão todas a fechar. Não é justo, senhor doutor. Dei tudo a esta empresa. Trabalhei aqui 40 anos. Ele foram sábados, ele foram domingos, noites, tudo. Eles pedio e a gente binha. Fiz-me aqui mulher. Conheci aqui o meu homem. Deixei aqui a minha carne e agora querem que deixe aqui os ossos. Não é justo, senhor doutor. Eles encheram-se à nossa custa e agora mandam-nos assim embora com quatro mil contos. Acha justo, senhor doutor? O que é que eu faço com quatro mil contos? O meu homem está desempregado, o meu filho é doente, tenho a casa para pagar...
A voz embarga-se-lhe. Tira os os óculos e já não disfarça as lágrimas que ao princípio tentou segurar com um lenço de papel. Correm-lhe agora livres pela cara.
- Desculpe, senhor doutor, mas isto é duro. A gente sabia que as coisas não estavam fáceis e a gente via que não havia encomendas como antigamente, mas a gente estava a trabalhar e não estava à espera disto. É muito duro...
A voz cala-se-lhe outra vez na garganta.
Tento consolá-la e falo-lhe de coisas estúpidas: de subsídio de desemprego, de pré-reforma, do futuro em que há que ter esperança e que há-de ser melhor do que o presente.
As lágrimas secam-se-lhe num segundo de dignidade e o silêncio de desprezo no olhar suplica-me que pare de a fazer de parva..
Sai sem uma mais uma palavra.
Peço para entrar a segunda.
- Não é assim que as coisas se fazem, senhor doutor - avança ela sem preliminares. Eu sei que o senhor está a fazer o seu papel, mas não é assim que as coisas se fazem. Nós somos humanas. O senhor doutor ponha-se no nosso lugar. Estamos aqui a trabalhar e entra-nos um batalhão de advogados pela fábrica dentro. Não é assim. Por que é que eles contrataram os senhores? Por que é que eles não dão a cara? Falaram sempre connosco e agora que é para nos mandarem embora contratam advogados? Não é assim. Nós somos humanas, senhor doutor. O senhor também não gostava, não é? Quer-se dizer, para nos pagar não há dinheiro, mas para para pagar a advogados para nos mandar embora já há. Não é assim...
Estão confusas, revoltadas, indignadas, impotentes. Algumas, poucas, resignadas.
São quase trezentas. Usam todas óculos. Passaram os últimos 40 anos debruçadas sobre os volantes das máquinas de remalhagem, a enfiar linhas invisíveis em punções minúsculos. Só. Todos os dias. Oito horas por dia. Milhões de vezes por ano: enfia, pica, enfia; enfia, pica, enfia; enfia, pica, enfia...
A função embotou-lhes a vista e o espírito.
Enfia, pica, enfia; enfia, pica enfia...
Ganham 475 euros por mês. Salário mínimo.
Enfia, pica, enfia; enfia, pica enfia...
Na China, trezentas miúdas felizes, de 14 anos e a 4ª classe chinesa, fazem agora o que elas vão deixar de fazer.
Enfia, pica, enfia; enfia, pica, enfia...
-
Ontem, ela pede para falar outra vez comigo.
Que sabe que eu não posso fazer nada, mas que tenho que a ajudar. Que tenho que falar com os patrões, porque ela não pode ser despedida. Que não é como as outras que se deixam parar. Que anda a tirar um curso de informática e que há-de mudar de vida, mas, que se eu não a ajudar, desiste de tudo e até do filho de onze anos. Que lhe faça só esse favor "senhor doutor". Que me fica grata para toda a vida, mas que fale com os patrões para não a despedirem.
Suplica em lágrimas novas e mais abundantes.
Explico-lhe condoído que compreendo o seu drama, mas que ela também compreenderá que, se eu lhe fizesse o favor que me pede, teria que o fazer igualmente às trezentas colegas que estão na mesma situação.
Em silêncio, envergonhada de uma vergonha sem idade, ela abre à minha frente a blusa e mostra-me o peito e o braço negros de sangue.
- Foi o meu marido, quando lhe disse que ia para o desemprego. Mas é pelo meu filho que eu lhe peço, senhor doutor, que o pai também lhe bateu.
-
Se tudo correr como o previsto, na terça-feira estará tudo terminado e pagar-me-ão pela semana de trabalho quase o que elas ganham num ano.
"Defender o emprego com direitos é uma questão de dignidade humana e um imperativo nacional" - diz o comunicado que o Partido Comunista Português distribui junto aos portões da fábrica.
- Não percebo como é que estes comunistas ainda existem. Só em Portugal - comenta o meu colega ao vê-los quando vamos almoçar.
E eu tenho vergonha por ele e por mim.

65 lembraram-se de contestar:

Nuno Almeida disse...

É triste.
E de facto, como diz o título, uma tragédia.
Infelizmente este tipo de situações sucedem-se a um ritmo alucinante.
De tal forma que já nem são notícia para os telejornais.

privada disse...

excelente estes relatos pena k empresários e advogados não os façam mais vezes serão o histórial e a memória do início de um enorme drama neste país.
a fábrica ainda ter um milhão para idmenizaçoes é óptimo e contratar advogados Tbm.

privada disse...

Pk tem vergonha Mestre? Vergonha do país? Se resolvessem investir esse milhão na produção´ será k não ia ser bem pior e nem 4 mil havia? Vergonha do país Tbm tenho Pk essas pessoas não tem mais hipótese. E não há mais tolos pá investir.

privada disse...

lido com mt miséria e nestes tempos até pouco assumida sem peditorios arranjei um truke digo este governo desatam a defende lo e aplico de imediato a genealogia da moral. Dps basta puxar a situação da vizinha k tá ainda pior e verificar k a piedade k kerem é mt exclusiva. E a partir daí sinto menos pena afinal há sec k é assim. Mas vou me despedir.

mac disse...

Triste é apanhar uma carga de porrada porque a fábrica fechou.

Mas sobre isso não se fala porque é a realidade da vida, fazer o quê?

pbl disse...

Porco fascista.
Se tivesse vergonha, não andava para aí a limpar a merda dos outros e não vinha para aqui contar o que fez ao serviço do Capital.
A desgraçar famílias.
Se calhar, ainda violou a filha da pobre senhora.
Era fuzilar esta camarilha toda.

R. da Cunha disse...

Alves Redol poderia ter escrito isto.

marta disse...

Não sei o que dizer, apetece-me só chorar
por elas, por si, por este país que sonhei mais justo, mais digno e que está uma boa merda

helena disse...

Um país triste, muito triste... cheio de lirismo esquerdista e depois é só exploração e ignorância.

Luís Maia disse...

Subscrevo por inteiro o comentário da Marta, mas não entendo o comentário da helena e a ideia que a culpa é do tal lirismo esquerdista.

Luís Maia disse...

Contudo o meu abraço ao Funes

Não é fácil ter escrito este texto

Luís Maia disse...

A esse seu execrável colega deveria ser dado o destino que está reservado a esses trabalhadores e talvez percebesse que é por causa de pessoas como ele que há partidos e há causas que não se finam, infelizmente tem a duração que a fome e a miséria das pessoas determinam.

Ele não se preocupe os partidos onde votam pessoas como ele não acabam, pode ir para a praia descansado no dia das eleições

Blimunda disse...

E nós por aqui, a brincar ao farmville e a tomar facebookanax alternado com bloguitúricos. Nós aqui a assobiar para o lado porque a vida é mesmo assim - uns são pobres, outros não. E nós aqui a dar fortes aplausos e abraços a homens que não entendem porque é que ainda existem pessoas que defendem, liricamente ou não, o direito ao trabalho condigno, mas entendem que uma empresa pode perfeitamente falir por má, danosa e, na maioria das vezes, fraudulenta gestão, atirando milhares de desgraçadas que não tiveram outra sorte senão enfiar e picar e, apanhar durante uma vida inteira para a tragédia do desemprego. E no meio, de tudo isto, uns senhores engravatados e exaustos de governar um país difícil de governar, gastam milhões na renovação dos carros onde transportam os seus majestosos traseiros de cá para lá e de lá para cá. Mas este país sempre esteve esta boa merda. Só que a dimensão agora é outra. Há mais merda e é mais exposta.

100anos disse...

Só posso concordar com os comentadores anteriores.
Sintetizando: isto está uma boa merda.
Fede por todos os lados.
Dá vontade de fazer uma loucura e não é de estranhar que almas menos dadas à sensatez enveredem mesmo por esse caminho.

Anónimo disse...

Eu não disse que a culpa era só do "lirismo esquerdista", eu quis dizer que muitos senhores da esquerda (supostamente da oposição, sim, porque já não se percebe bem o é um partido de esquerda ou da direita, ou quem é a oposição) agarraram-se à revolução do 25 de Abril e, deste então, nada mais fizeram senão recordar ou festejar esses tempos.
Resultado: temos uma classe operária sem formação e bem nivelada; uma agricultura e uma pesca de subsistência; empresários pouco empenhados e sem formação; uma educação pouco eficaz a nível profissional; uma concorrência estrangeira desenfreada; uma justiça cega, lenta e injustiça e uma classe política incompetente e teatral.
Gosto de poesia e de teatro, mas nos devidos contextos. Mas, ultimamente, sempre que vejo os telejornais, leio jornal, só vejo teatro e "lirismos" cujos actores/poetas são os dirigentes políticos.
É vergonhoso e revoltante aquilo que se passa no nosso país.
Helena
Helena

Anónimo disse...

Blimunda, hoje em dia é mais barato ficar em casa no facebook e nos blogs, que nos deslocarmos de autocarro ou de carro ou mesmo de avião, até porque não há dinheiro para o combustível, para o jornal, para o cinema, para os livros, para o teatro e para o café. O governo ajuda com os Magalhães.

Helena

Gi disse...

E não há solução. Não vale a pena queixarem-se dos empresários que para continuarem a vender se vêem obrigados a fechar as fábricas de cá e abrir onde a mão-de-obra é ainda mais barata.

As trezentas mulheres que trabalhavam nessa fábrica provavelmente comiam e vestiam produtos fabricados fora - na China ou, com sorte, na Polónia ou na República Checa.

É um ciclo assassino. Dói-me o desespero delas, e das outras muitas a quem ainda vai acontecer o mesmo.
Nenhum de nós está livre.

Amil Neila disse...

Um belíssimo post para uma situação sem soluções fáceis nem respostas prontas. Isento de cinismo e sem querer puxar ao sentimentalismo fácil. Triste.

pbl disse...

Então, já se suicidou com os remorsos?
Não!
Então trate disso, tenha vergonha, porte-se como um homem uma vez na vida.

POVO EM LUTA ! disse...

Camarada:

O AVANTE e a SOEIRO PEREIRA GOMES, precisam de ti !
Adere ao PCP, e contacta a RITA RATO, para madrinha.

Privada, o bacoco disse...

Mestre para testar o sistema, diga a uma delas, que a senhora que levou porrada merecia de facto, pelas condições individuais, ter um emprego e tal.
Verifique a solidariedade entre iguais, eu sei, nao tem nada a ver, mas é sempre interessante, testar esse fenomeno.

Anónimo disse...

O POVO ENLUTA, sim, CAMARADA!

jama disse...

Sendo a advocacia uma profissão liberal, o advogado só deve aceitar casos que não ofendam a sua consciência. Bonito!? Mas, se assim fosse, acho que os advogados não teriam trabalho (nem subsídio de desemprego!!!). Por outro lado, pensar que a causa de situações como as que descreve (e que sempre foram correntes, embora, ultimamente, sejam muito mais frequentes) está empregadores, é ter vistas curtas. É que, na esmagadora maioria dos casos, os empregadores são as maiores vítimas. Os empregadores que sempre procederam honestamente, quando a empresa fecha as portas, para além de não terem sequer direito ao subsídio de desemprego, vêm a liberdade ameaçada, ou mesmo coarctada, e a fazenda penhorada. Garanto-vos que muitos dos gestores das empresas insolventes ficariam muito satisfeitos por, no fim de 40-50 anos de trabalho e a criarem empregos, receberem 4.000 contos e ficarem sem sem contas a saldar, com credores e com a justiça.

Nuno Almeida disse...

Nalguns casos será, na minha modesta opinião, um castigo pequeno.
Esses empresários que ficam com a fazenda penhorada viveram, muito provavelmente, como de costume acima das suas possibilidades e pagando ordenados miseráveis aos seus funcionários que agora, sem esses míseros 4 mil contos estariam em 2 dias a morar debaixo da ponte (literalmente).

Com a penhora das fazendas podem eles (e eu) bem.
Eles que vendam os Mercedes, os BMWs, os Porches e até os Ferraris, as casas no Algarve, as lanchas, os iates e o raio que os parta.

E não são também poucos os casos em que essas penhoras resultam, não de problemas financeiros das empresas, mas sim dessa vida de gastos acima daquilo que podiam e deviam na sua vida particular.

Funes, o memorioso disse...

Três notas aos comentários anteriores:
1- A empresa é inviável com o número de postos de trabalho que tem (estes foram criados num tempo em que o número de encomendas era consistentemente muito superior ao actual); as indemnizações propostas são legais; o processo é límpido, transparente, tem o respectivo enquadramento jurídico aprovado pelo ministério da tutela e destina-se a sacrificar umas centenas de postos de trabalho, para salvar outras tantas centenas. Em momento algum, a minha consciência de advogado pôs em causa o serviço que aceitei prestar e que presto na certeza que as soluções preconizadas são as melhores para o conjunto da empresa e dos seus trabalhadores. A alternativa é a insolvência da empresa, que deixa as trabalhadoras não despedidas sem emprego e as agora despedidas sem emprego e sem indemnização.
Isto não invalida que, como cidadão, me incomode a existência de famílias inteiras forçadas a viver com 475 euros por mês e forçadas a ir para o desemprego com uma indemnização calculada com base num salário de 475 euros por mês.
2- Só num momento do meu post é legítimo alguém ler a confissão de qualquer remorso ou sentimento de culpa. Foi quando escrevi:"Tento consolá-la e falo-lhe de coisas estúpidas: de subsídio de desemprego, de pré-reforma, do futuro em que há que ter esperança e que há-de ser melhor do que o presente. As lágrimas secam-se-lhe num segundo de dignidade e o silêncio de desprezo no olhar suplica-me que pare de a fazer de parva...". Não sinto quaisquer remorsos pelo valor que me pagam e que, em todo o caso, não fui eu que fixei ou negociei.
3- Não creio - e isto é uma opinião política - que o Partido Comunista Português tenha qualquer solução válida para estes problemas. Constato apenas que estava lá. E estava lá genuinamente preocupado (ainda que impotente) e solidário com estas mulheres. Sem propósitos eleitoralistas. Seja quais forem os seus defeitos (e são inumeráveis) este mérito não lhes pode ser negado.

privada disse...

O Nuno fez me ver a realidade.
Realmente com 475 a comprar casa, fogo, isso é viver acima das possibilidades e provavelmente carro, porque não se deixou ficar onde vivia antes de comprar casa?
Ai quis abancar? Poupasse, olha, comprar casa, pensa k por trabalhar já pode investir, poupasse! Agora já não se keixava, é muito bem feito. Só em juros? Olha com 475 abancar a proprietaria, francamente.

Nuno Almeida disse...

LOL
Oh privada, explique-se lá, que eu não percebi nada!

patricia m. disse...

Funes, sera que a empresa nao eh inviavel porque o governinho de M a taxa pesadamente? Ou porque devido ao mesmo governo os salarios sao inviaveis (475 euros nao eh nada, mas... na China vive-se com 100 euros), e nao apenas os salarios, mas todos os "beneficios" como aposentadoria garantida com 20 ou 25 anos de trabalho e medicina socializada e o kct a 4?

Eu nao sou insensivel, morro de pena dessas pessoas, mas Portugal nao eh um estado competitivo para a industria. De novo - e voces vao me encher a paciencia por isso - por que a Alemanha consegue ter uma industria super forte e voces nao? Estao todos dentro da mesma zona do euro...

patricia m. disse...

Privada, o Nuno estava metendo o pau no empresariado...

Anónimo disse...

Mas o partido comunista é o único partido de esquerda? O partido socialista é o quê?
Enfim... isso já interessou, agora nada faz sentido na política portuguesa... Talvez o consolo à saída das fábricas e a visão optimista do senhor primeiro ministro tenham algum sentido num momento destes.

100anos disse...

Caro Anónimo, faz uma pergunta muito pertinente: o partido socialista é o quê ?
Judiciosa pergunta para a qual não há resposta unívoca.
Para uns, é um partido de esquerda: trata-se de gente que ou nunca foi de esquerda ou já se afastou dela há tanto tempo que sonha acordada com esquerdas e direitas.
Para outros é claramente um partido de direita: é vê-lo a esvaziar o PSD e o CDS exactamente porque faz as políticas que Pêéssedês e Cêdêésses eram perfeitamente capazes de fazer.
Para outros, finalmente, é pura e simplesmente um agrupamento de malfeitores que se aproveitou da política para enriquecer, empobrecendo todos os outros concidadãos.
Não lhe vou dizer qual é a minha opinião, até porque ela interessa pouco, mas o que é facto é que os tipos enriqueceram à fartazana desde que alcançaram o poder e o País empobreceu em igual medida.
Sobre a classe empresarial:
Meus caros amigos, os empresários portugueses são do piorio – semi-analfabetos, alguns com mais estudos lá fizeram o antigo 5º ano do Liceu, a maioria vive para o lucro imediato e para o enriquecimento súbito; estou convicto de que a grande maioria não sabe sequer o que é o re-investimento e a reprodução do capital através do investimento inteligente e diversificado.
O país sufoca numa onda de burocracia e mediocridade e é um tremendo erro crer que essa burocracia e mediocridade é exclusiva das profissões ligadas ao Estado – elas existem em grau elevado e em grande concentração nas empresas mais insuspeitas, como Bancos e Seguradoras.
Tais mazelas têm tendência a multiplicar-se num mundo em que o mérito não só não é premiado como chega a ser perseguido, pois num mar de mediania para o baixote qualquer iniciativa criativa e capaz de gerar riqueza dá nas vistas pela negativa - “mas o que é que faz este gajo correr ?”, “porque raio de carga d'água é que não deixa andar, como toda a gente ?” - meus caros, eu tenho uma experiência pessoal com esta lógica que não vou contar, evidentemente, mas que me ensinou que ter razão antes de tempo pode ser funesto para uma carreira catita – sempre é melhor do que na Idade Média, em que ter razão antes de tempo implicava a morte na fogueira.
A talhe de foice, permita-se-me que conta aqui uma “boca” atribuída a Freud: dizem que um belo dia, confrontado com um auto de fé de queima dos seus livros pelos nazis, o pai da psicanálise exclamou “Óptimo, isto exemplifica a evolução da humanidade – há 100 ou 200 anos tinham-me queimado a mim !”.
É nesse sentido que eu digo que nós – portugas – lá vamos evoluindo, embora sempre voando baixinho.

100anos disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
100anos disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
pbl disse...

A declarações que este Funes não faz para evitar ter de se meter numa banheira de água quente.

100anos disse...

Peço desculpa, não sei o que aconteceu, nem sequer estou com soluços, mas o certo é que o comentário anterior me saiu em triplicado.
As minhas desculpas - em duplicado.

Tiago Taron disse...

Leio e releio este post e há uma palavra de fundo que está como uma sombra em todos os parágrafos: "condoído".
Sem qualquer cinismo nem "lambe-botismo", que grande advogado foram buscar para falar com as mulheres desta história e que bem que quem não soube estar presente conhece essas mulheres e o advogado que escolheu. Fica-me só uma dúvida: em tanto acerto o que fazia ali o advogado da scena da saída?
Depois tenho outra dúvida, que já vivi: não será ainda mais difícil para estas mulheres serem despedidas por alguém de quem não vão poder dizer mal. Como se diz no início, o senhor não tem culpa, só está aqui a fazer o seu papel, mas há alguém que não deveria deixar de ver, de ver mesmo, como nas partes más dos filmes em que às vezes fechamos os olhos. Ocorre-me que esse alguém talvez leia este seu post e assim possa ver mesmo, e ouça o que aquelas mulheres pediram ao Advogado que transmitisse a "quem de direito", a quem não deveria poder deixar de ouvir. Pensando nisso respondo não à segunda dúvida. Ainda bem que que alguém limpo fez o que os outros chamam e tornam sujo, trabalho sujo. Parabéns D. Funes

privada disse...

Estou integralmente com o Jama e com a Patricia.
Mas o povo tem alguma razao, kd pergunta para que é que o gajo corre, é ke efectivamente nestas condições não se chega a lado nenhum.

Ora Nuno, seu apologista do proteccionismo laboral, se o empresario viveu acima das possibilidades a senhora costureira tbm o fez, então vai comprar casa a viver com 475€?
E provavelmente carro e ainda por cima com um marido violento e alcoolico?
Como paga as despesas não entendo, ok pode ser um daqueles apartamentos que costroem nas aldeias, mas ainda assim, como paga prestação e juro, luz e água, e come?
Ela armou-se um bocadinho, ks tanto como o empresario.

patricia m. disse...

Amigos, o empresariado portugues e o governo sao parte da sociedade e portanto o espelho mesmo de voces. So reclamar nao adianta nada, ou so sentir peninha das pobres costureiras tb nao.

O negocio mesmo eh emigrar.

Haha.

patricia m. disse...

As costureiras tb sao reflexo da sociedade, contentaram-se com o salariozinho de M no final do mes e com o trabalhinho manual, nao procuraram estudar e tirar diploma e crescer na vida, certamente porque o Papai Estado cuidaria delas no final das contas.

E nem para mandarem o marido violento e alcoolatra para fora de casa foram capazes. Eh o fim.

privada disse...

Concordo é obvio, nós somos a imagem da costureira, um país que trata mal, que não desenvolve e nós mantemos a relação sem levantar grandes ondas, uns por falta de hipotese, outros por remota esperança, outros por medo. E ate nos sentimos mal a dizer isto, quando tal, estamos a defender a nossa propria situação miseravel, tal e qual a costureira.

Mas podemos salvar os jovens, podemos dizer-lhe ke efectivamente nada muda, nao há bases essenciais, é melhor procurar outros caminhos e há estagios tão fixes agora na Europa, cenas tão porreiras, não tem que ficar aqui, devem ir.

Nuno Almeida disse...

É claro que se armou privada, mas não tanto como o empresário.
Não sou de forma nenhuma defensor do proletariado (no sentido PCP e BE da coisa), mas na maioria destas situações se há alguém a quem não podemos atirar as culpas é aos operários.

jama disse...

O que o Funes está a fazer é correcto. É assim que devem proceder os empresários correctos, honestos e informados. Na década de 80 e 90, esses mesmos empresários provavelmente teriam deixado de entregar ao Fisco e à Segurança Social as importâncias retidas (e, dessa forma, teriam conseguido manter os postos de trabalho, quem sabe se por muitos e muitos anos), apoiados por políticos que até defenderiam que a não exigibilidade imediata pelo Estado de tais importâncias era uma forma encapotada de subsidiar as empresas portuguesas. Porém, cedendo às pressões de muitos fazedores de opinião que nunca viram uma empresa a funcionar, os políticos, de repente, acharam que a lei (que já existia havia muitos anos) tinha de ser aplicada de forma rigorosa. Os processos crimes por cheques sem provisão foram arquivados (com a despenalização do cheque pos-datado) e "substituídos", nas secretarias dos tribunais, por processos de abuso de confiança fiscal e de abuso de confiança à segurança social. O Estado deixou de accionar processos de onde podia resultar a cobrança das dívidas de terceiros e passou a accionar (mas, como é óbvio, sem qualquer relação de causa efeito) processos em cuja origem estão dívidas de que ele próprio é credor . Ainda que lentamente, os empresários adaptaram-se a essa nova realidade: se não têm dinheiro para manter o negócio, pagam a parte da dívida ao Fisco e à Segurança Social tutelada com a possibilidade de privação da liberdade, e a seguir fecham a empresa. O Nuno Almeida tem razão na censura que faz aos empresários dos BMW, dos Mercedes, Ferraris, etc.. Mas, tal como existem empresários desonestos, também existem trabalhadores que, para além de ganharem mais do que merecem, ainda são desgovernados. Mas, tal como a esmagadora maioria dos empresários, também os trabalhadores são honestos.O problema, creio eu, está nas políticas e, sobretudo, na sua imprevisibilidade, ou seja, no que bem refere o 100anos na parte final do seu comentário.

Nuno Almeida disse...

O privada acha admissível que esses grandes empresários com a 4ª classe ofereçam 500 euros a um recém-licenciado?
Que lhes ofereçam um contrato de 3 ou 6 meses e depois lhes os ponham no olho da rua para contratar outro nas mesmas condições?

Nuno Almeida disse...

jama, o problema é que conheço muito poucos empresários honestos.
Devo conseguir contar pelos dedos da mão os que conheço que não andam metidos em esquemas de fuga ao fisco ou outras coisas do género.

Não conheço a realidade de outros países, para fazer comparações como se ouvem por aí, mas a ideia que tenho da classe empresarial portuguesa, salvo raras excepções, é que tem como único objectivo o enriquecimento próprio, com um politica de não investimento, de salários mínimos, de desinvestimento nas pessoas.

privada disse...

Os empresarios são ao que dizem analfabetos, exploradores, isso são caracteristicas de pessoas pouco inteligentes, então se eles conseguiram criar uma empresa, porque é que há tão poucas, e a maioria soa empresas para trabalhar para os monopolios? é que se o nivel dos empresarios é esse, é o mais baixo, qualquer pessoa poderia criar uma empresa e tratar bem os trabalhadores.

De facto os empresarios são muito burros, os mais burrinhos do sistema, porque qualquer calhau com olhos vê que não vale a pena arriscar, a burocracia, leis laborais, sistemas, mentalidades... nada disso paga o sossego de poder estar numa empresa qualquer a tirar menos, mas sem essa desacreditação sucessiva, esse peso aterrorizador do Estado, dos trabalhadores.

É por isto que os empresarios portugueses são burros, mas mesmo burros, só burros, é que nestas condiçoes, se poderiam prestar a ser investidores .

Woman Once a Bird disse...

Tenho realmeente pena que, perante um post como este, ainda haja quem se dê ao luxo de brincar e ironizar com as dificuldades de outrém. Com os problemas dos outros brincamos nós muito bem. Até ao dia (e aí não há diploma que nos acuda).

Nuno Almeida disse...

O privada privada deveria estar a fazer o trabalho do Funes.
Fazia-o melhor e sem espinhas.
A indemnização de 4000 contos e o salário mínimo que receberam durante 30 anos é foi mais que suficiente, porque o sr. empresário que teve a coragem de abrir a empresa é que merece todo o crédito.
Ponha-o a trabalhar sozinho.
Melhor, privada.
Abra uma empresa e não contrate ninguém.
Ou então, contrate mão de obra chinesa.
Lá é que é dado o devido valor aos empresários.
Lá os empregados trabalham por 100 euros por mês e não bufam.
Até ficam agradecidos.
Estaríamos bem melhor se fossemos chineses.

patricia m. disse...

O Privada esta certo no ultimo comentario e o Nuno errado, na minha opiniao.

Sim, acontece em Portugal o mesmo que na Espanha: as leis trabalhistas sao tao absurdas que mais vale a pena para a empresa contratar temporariamente o sujeito do que por tempo indeterminado. Isso nao eh CULPA do empresario; o empresario nao eh "bom" ou "mau". Ele apenas REAGE economicamente aos fatos.

E eh isso que infelizmente a ESQUERDA OTARIA nao entende. Querem porque querem "proteger" o trabalhador e na verdade so atrapalham.

patricia m. disse...

E agora nao se pode mais discutir problemas economicos sob o pretexto de que estamos brincando com as pessoas...

Vai falar em comunismo e estas no paredon.

Nuno Almeida disse...

patricia m e privada, eu não estou a discutir a qualidade das leis do trabalho.
Estou a discutir a qualidade de quem as faz e principalmente de quem delas beneficia.

E para que não discordem mais de mim vou ali ao facebook criar o grupo dos que acham que o privada devia ir trabalhar prás obras porque é claro que não percebe nada disto.

E não lhe mando mais tábuas nem abelhas.
Disse.

Privada, o bacoco disse...

Não pá, então, só me falta a abelha mestra, Nuno, a sério.

Como o Jama e o 100 anos referiram, é bom estar no lugar de Funes, quem derá pá, que metade das empresas conseguisse terminar com esta dignidade. Já não curtia nada estar no lugar dos investidores, e se estivesse talvez fosse daqueles empresarios estupidos que olhava para aquelas familias e dizia, oh pá não sou capaz, vamos investir o que temos novamente, vamos tentar mais uma veze, depois iamos todos para casa sem nada.
É ke é mt dificil pá, saberes quando acabou, fazeres as malinhas, distribuires ate ao ultimo parafuso, fechares a porta pela ultima vez e bute arranjar trabalho e vida propria que um empresario nao tem.
Aos nossos empresarios falta a visão economica da coisa, o mais dificil de tudo, creio eu, é arranjar força para fechar a pestana, chamar os advogados e dizer adeus.

Privada, o bacoco disse...

Enquanto é tempo, porque quando já está tudo perdido, ainda que o empresario nao feche, outros pedem o encerramento.
Se fosse como na empresa k Funes representa, a economia estava melhor.
Saber quando acabou, encarrar, olhar aquela gente toda, e dizer nao posso mais dar rendimento a estas familias.

A porcaria toda vem da moral, o raio da moral, nao pode haver essa dos coitadinhos pá, isso é cristianismo, lixa tudo.

Nuno Almeida disse...

Eu nunca disse que este não era um bom exemplo.
O que eu disse é que há muito raras excepções à regra.
O problema de facto é da moral.
Da falta dela.

Privada, o bacoco disse...

Hoje na antena 3 prova oral com Marinho Pinto e Alvim, não é o eskilo, o apresentador.

Nuno Almeida disse...

Eu aposto que ele vai comer o Alvim, ou na melhor das hipóteses trincá-lo.
Quem é que ele irá insultar hoje?

Privada, o bacoco disse...

Nao faço ideia, mas estou curioso:-)

Privada, o bacoco disse...

Estou para ver alias, como é ke o Alvim vai fazer para falar, quem sabe pedir uma licença:-)))))

jama disse...

Não invejem a vida do Funes, e nem acreditem que ganhar (que não é sinónimo de receber) pelo trabalho de uma semana o que os trabalhadores que viram cessados os seus contratos de trabalho ganharam num ano, é sem riscos, como quase o seria se se tratasse de trabalho dependente. É que até ao lavar dos cestos é vindima, ou, dito de outra forma, até aos trabalhadores ser reconhecido o direito ao subsídio de desemprego (imaginem o que sucederia se a cessação dos contratos tivesse ocorrido por revogação por mútuo acordo, o reconhecimento do direito ao subsídio de desemprego tivesse sido um dos pressupostos desse acordo e esse subsídio não viesse a ser concedido!?) e ao Funes serem pagos os honorários (ou será que os cobrou todos a título de provisão? Pelo estilo, não me parece).

Privada, o bacoco disse...

O que é que sucedia? Iam todos para o tribunal de trabalho e Funes ficava credor de mais umas quantias? E depois reintegravam e iam tudo à falencia de vez? :-))))

Blimunda disse...

Privada, eu estive aqui. Hoje o alvo foi o Nuno. Nop! Tão déjà vu este cenário todo! Paroles et paroles et paroles et paroles
paroles et encore des paroles que tu semes au vent...

pbl disse...

WOAB, ninguém está a ironizar com as dificuldades dos outros.
Todos os dias fecham empresas, são despedidas pessoas e empresas vão à falência.
É uma pena, mas é a vida.
Presumir que brincar numa caixa de comentários deste blog (logo deste blog) é desvalorizar esses problemas é de uma presunção absolutamente disparatada.
O post do Funes é um exercício muito interessante, extraordinariamente bem escrito, mas é apenas isso, um exercício que, em bom rigor e ao contrário do que deixa implícito no seu comentário, nem sequer revela especial consideração pelos dramas que relata ou pelos seus personagens.
Ou não teria sido publicado.

Minerva disse...

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Nuno Almeida disse...

Quem tem razão é a minerva!

100anos disse...

Only ten times a day ?
Dear Minerva, you should see a Doctor - less than 20 is too bad...

Su disse...

é uma vergonha para todos