A renda era barata e o apartamento, nas Janelas Verdes, ficava a menos de um minuto da ERC. Além disso, a proximidade do Museu de Arte Antiga e do “Ramalhete” – o velho casarão de paredes severas onde Afonso da Maia se instalou com Carlos nesse distante Outono de 1875 – acendia em mim uma romântica aura de familiaridade de bairro a que não podia nem sabia resistir.
Tomei-o de arrendamento.
Mas a casa era velha e precisava, ao menos, de uma pintura que a refrescasse e lhe desse um ar menos sombrio. Foi por isso com alguma satisfação que, na passada segunda-feira, ao regressar do Porto, encontrei na caixa do correio o pequeno cartão-de-visita dos tempos de crise: «’RM – Reabilitação de Imóveis, Ld.ª’ – especialista em todo o tipo de pinturas e recuperação de espaços interiores. Restauro de tectos de gesso. Canalizações e saneamento».
Marquei o número do telemóvel e agendámos o encontro para as nove da manhã de hoje.
Apareceu às dez e meia.
Tinha um ar calmo e distinto. Era alto e relativamente magro. Passaria largamente dos sessenta, mas não chegaria ainda aos setenta. Caminhava devagar, muito direito, sempre com as mãos atrás das costas. Vestia um fato preto sobre uma camisa impecavelmente branca. A gravata, também preta, descia ligeiramente inclinada e muito estreita a partir de um nó quase cego e fora de moda, deixando visível o interior dos colarinhos. Alvíssimos. O cabelo, que os anos não tinham diminuído a não ser por duas breves entradas que lhe alteavam a testa e acentuavam a nobreza do porte, estava todo puxado para trás, muito bem penteado, em tons de cinza claro, entremeado aqui e ali por uma madeixa que conservava ainda o castanho original.
Da boca pendia-lhe um cachimbo apagado e foi ao ver-me a olhar fixamente para ele que começou, mesmo antes de nos termos apresentado:
– Não, não fumo. Isto não é um cachimbo. É só uma mania minha.
Sorriu.
Falava pausadamente, enquanto o olhar perscrutante se detinha em cada pormenor à volta. Entrámos no apartamento. Disse-lhe o que pretendia: uma pintura breve e barata que desse apenas um ar mais claro ao ambiente. A casa não era minha e não tinha interesse em fazer nela grandes investimentos – expliquei.
Em silêncio, ele percorreu lentamente o quarto e a sala, analisando detalhadamente cada recanto, cada rodapé, cada fissura.
Deixei-o só
– Olhe – despertou-me ele, por fim – eu, se fosse a si, fazia uma coisa diferente. Você só tem aqui três ou quatro paredes que se podem trabalhar. Por que não pintar esta (e apontava a principal parede da sala) com um mar encapelado sob um céu azul com nuvens muito brancas e, suspenso no ar, como se a gravidade não existisse, um imenso penedo de granito, de arestas vivas muito marcadas, no topo do qual talhávamos, directamente na rocha, um castelo parecido com o de Santa Maria da Feira? Conhece o castelo de Santa Maria da Feira? Magnífico!
A imagem entusiasmava-o e, por um momento, alterou o tom sereno que até aí o caracterizara.
– E aqui – continuou entrando no quarto – fazia uma coisa mais interior, menos nervosa. Afinal é o quarto onde vai dormir. Que me diz assim a uma casa burguesa, erguida num parque romântico, com um pequeno lago à frente, pontuado por uma árvore muito grande, mais alta do que a casa, talvez um cipreste, tudo numa paisagem solitária e nocturna, mas que se torna luminosa e diurna quando se erguem os olhos ao céu? Podemos desenhar um candeeiro aceso e reflectido no lago… e uma das janelas altas da casa também pode ter as portadas abertas, vendo-se as luzes acesas no interior, para se perceber que é de noite. E o céu marcamo-lo com nuvens brancas a ressaltar o azul e a marcar o contraste com a noite junto ao chão. Que me diz? Um império das luzes! Que me diz? Quinhentos mil euros e fechamos já o negócio.
Olhei-o espantado, sem saber o que responder.
– Bem, talvez nos tenhamos equivocado – comecei. Eu não digo que a sua ideia não seja fantástica, mas…
– Compreendo – interrompeu-me ele. A crise toca a todos. Quatrocentos mil euros e não se fala mais nisso.
– Julgo que não me estou a fazer entender…
– Se preferir, se for mais o seu género, também podemos fazer qualquer coisa assim mais erótica. Sei lá… uma mulher meio ruiva, com o cabelo não muito comprido, solto e um pouco desgrenhado, com o pescoço muito alto. Fazíamos-lhe o rosto, e no rosto desenhávamos-lhe o corpo. As mamas eram os olhos, com as auréolas muito acentuadas e os mamilos a fazerem de pupilas; o umbigo era o nariz e o triângulo invertido dos pelos púbicos podia desenhar-lhe os lábios e a boca… então? Isso não lhe ia custar mais de cem mil euros…
Percebendo que a nossa conversa degenerava num diálogo sem saída, fui-o conduzindo para a porta.
– Sabe, senhor Magritte, eu adoro o seu plano e adorava ainda mais poder concretizá-lo. Infelizmente, não sou rico. Tive que vir trabalhar para Lisboa e arrendar esta casa secular a cair de velha. Se eu pudesse… mas assim... queria apenas alguém que me desse uma borradela às paredes.
– Pois é, os tempos não estão nada fáceis...talvez noutra oportunidade, quem sabe?
– Quem sabe?
Despedimo-nos amigos e, lentamente, fechei a porta, enquanto ele desaparecia na rua, caminhando devagar para os lados do museu. As mãos sempre atrás das costas.
Pouco depois, a campainha tocou. Era outra vez René Magritte:
– Olhe, também lhe posso pôr aqui uma equipa de dois homens a arranjar os canos. Faço-lhe um orçamento. De certeza que não vai gastar mais de quinhentos ou seiscentos euros.
Tomei-o de arrendamento.
Mas a casa era velha e precisava, ao menos, de uma pintura que a refrescasse e lhe desse um ar menos sombrio. Foi por isso com alguma satisfação que, na passada segunda-feira, ao regressar do Porto, encontrei na caixa do correio o pequeno cartão-de-visita dos tempos de crise: «’RM – Reabilitação de Imóveis, Ld.ª’ – especialista em todo o tipo de pinturas e recuperação de espaços interiores. Restauro de tectos de gesso. Canalizações e saneamento».
Marquei o número do telemóvel e agendámos o encontro para as nove da manhã de hoje.
Apareceu às dez e meia.
Tinha um ar calmo e distinto. Era alto e relativamente magro. Passaria largamente dos sessenta, mas não chegaria ainda aos setenta. Caminhava devagar, muito direito, sempre com as mãos atrás das costas. Vestia um fato preto sobre uma camisa impecavelmente branca. A gravata, também preta, descia ligeiramente inclinada e muito estreita a partir de um nó quase cego e fora de moda, deixando visível o interior dos colarinhos. Alvíssimos. O cabelo, que os anos não tinham diminuído a não ser por duas breves entradas que lhe alteavam a testa e acentuavam a nobreza do porte, estava todo puxado para trás, muito bem penteado, em tons de cinza claro, entremeado aqui e ali por uma madeixa que conservava ainda o castanho original.
Da boca pendia-lhe um cachimbo apagado e foi ao ver-me a olhar fixamente para ele que começou, mesmo antes de nos termos apresentado:
– Não, não fumo. Isto não é um cachimbo. É só uma mania minha.
Sorriu.
Falava pausadamente, enquanto o olhar perscrutante se detinha em cada pormenor à volta. Entrámos no apartamento. Disse-lhe o que pretendia: uma pintura breve e barata que desse apenas um ar mais claro ao ambiente. A casa não era minha e não tinha interesse em fazer nela grandes investimentos – expliquei.
Em silêncio, ele percorreu lentamente o quarto e a sala, analisando detalhadamente cada recanto, cada rodapé, cada fissura.
Deixei-o só
– Olhe – despertou-me ele, por fim – eu, se fosse a si, fazia uma coisa diferente. Você só tem aqui três ou quatro paredes que se podem trabalhar. Por que não pintar esta (e apontava a principal parede da sala) com um mar encapelado sob um céu azul com nuvens muito brancas e, suspenso no ar, como se a gravidade não existisse, um imenso penedo de granito, de arestas vivas muito marcadas, no topo do qual talhávamos, directamente na rocha, um castelo parecido com o de Santa Maria da Feira? Conhece o castelo de Santa Maria da Feira? Magnífico!
A imagem entusiasmava-o e, por um momento, alterou o tom sereno que até aí o caracterizara.
– E aqui – continuou entrando no quarto – fazia uma coisa mais interior, menos nervosa. Afinal é o quarto onde vai dormir. Que me diz assim a uma casa burguesa, erguida num parque romântico, com um pequeno lago à frente, pontuado por uma árvore muito grande, mais alta do que a casa, talvez um cipreste, tudo numa paisagem solitária e nocturna, mas que se torna luminosa e diurna quando se erguem os olhos ao céu? Podemos desenhar um candeeiro aceso e reflectido no lago… e uma das janelas altas da casa também pode ter as portadas abertas, vendo-se as luzes acesas no interior, para se perceber que é de noite. E o céu marcamo-lo com nuvens brancas a ressaltar o azul e a marcar o contraste com a noite junto ao chão. Que me diz? Um império das luzes! Que me diz? Quinhentos mil euros e fechamos já o negócio.
Olhei-o espantado, sem saber o que responder.
– Bem, talvez nos tenhamos equivocado – comecei. Eu não digo que a sua ideia não seja fantástica, mas…
– Compreendo – interrompeu-me ele. A crise toca a todos. Quatrocentos mil euros e não se fala mais nisso.
– Julgo que não me estou a fazer entender…
– Se preferir, se for mais o seu género, também podemos fazer qualquer coisa assim mais erótica. Sei lá… uma mulher meio ruiva, com o cabelo não muito comprido, solto e um pouco desgrenhado, com o pescoço muito alto. Fazíamos-lhe o rosto, e no rosto desenhávamos-lhe o corpo. As mamas eram os olhos, com as auréolas muito acentuadas e os mamilos a fazerem de pupilas; o umbigo era o nariz e o triângulo invertido dos pelos púbicos podia desenhar-lhe os lábios e a boca… então? Isso não lhe ia custar mais de cem mil euros…
Percebendo que a nossa conversa degenerava num diálogo sem saída, fui-o conduzindo para a porta.
– Sabe, senhor Magritte, eu adoro o seu plano e adorava ainda mais poder concretizá-lo. Infelizmente, não sou rico. Tive que vir trabalhar para Lisboa e arrendar esta casa secular a cair de velha. Se eu pudesse… mas assim... queria apenas alguém que me desse uma borradela às paredes.
– Pois é, os tempos não estão nada fáceis...talvez noutra oportunidade, quem sabe?
– Quem sabe?
Despedimo-nos amigos e, lentamente, fechei a porta, enquanto ele desaparecia na rua, caminhando devagar para os lados do museu. As mãos sempre atrás das costas.
Pouco depois, a campainha tocou. Era outra vez René Magritte:
– Olhe, também lhe posso pôr aqui uma equipa de dois homens a arranjar os canos. Faço-lhe um orçamento. De certeza que não vai gastar mais de quinhentos ou seiscentos euros.


16 lembraram-se de contestar:
:-)))))))))))))))))
Ah agora sim o regresso do Mestre, muito bom, só há uma coisa k nao bate certo, R. de imoveis? toda a gente sabe que as casas velhas mexem, imoveis?! que designação ligth.
Se não falasse na mulher nua eu até me acreditava na história!
Mestre, não seria o Privada disfarçado de Magritte para se fazer de caro?
Por acaso reconheci-me no texto, alto, elegante, mãos atras das costas, saido do museu com as roupas velhas e engomadas, tipo mumia, mas não tem nada a ver, o meu cachimbo é de água, da vitalis para ser mais preciso.
Muito boa narrativa!
Já se sabe mais qualquer coisa: a cavalgadura ferrada trabalha agora na ERC.
Fio a fio, lá se vai desfazendo a meada.
Aposto que é contínuo.
O que eu gostava de um dia apanhar um livro de António da Conceição numa qualquer banca perto de mim.
o Conceição é mais PRINCIIPIS OBSTARE
Cala-te boca...
A cabeça e pescoço de águia simbolizam a vigilância para detecção das ameaças à segurança interna e representam o olhar profundo, simultaneamente pesquisador e analítico.
O olhar da águia representa a inteligência. O bico fechado acentua a postura vigilante e perscrutadora.
O campo de negro, cor representativa da terra, alude ao território nacional cuja segurança interna é missão do Serviço assegurar.
As oito torres altas numa bordadura de ouro simbolizam a protecção e a segurança. A sua disposição segundo os quatro pontos cardeais e os quatro colaterais representa a intenção de detectar e defender de ameaças provenientes de qualquer direcção.
A coroa decorativa, transmite a ideia de dignidade e nobreza da missão.
Os esmaltes simbolizam:
NEGRO: prudência.
OURO: sabedoria.
PRATA: integridade.
DIVISA: principiis obstare, significa que a acção do Serviço de Informações de Segurança visa antecipar os perigos, prevendo e detectando as ameaças logo no início, a fim de alertar em tempo útil, de molde a prevenir, antes que se concretizem.
Io Io Io voltaste heim... Por onde andaste?????
Sr Funes.
o preço acho exagerado.
o sítio e a narrativa são bons.
se fosse eu não comprava.
eheheh
e o seu sporting,
sim.
é só mãos cheias de golos.
eheheh
Abraço
Bom!... Anda tanto imbecil por aí a borrar muros e fachadas em ruínas e vossemecê aqui perdido, pintando ricos frescos por 1/10 duma tela publicitária.
Esta vida anda mais perdulária que o governo.
Cumpts. :)
essa do candelabro refletido no lago, os cipestres, Tchekhov, finalmente a arte regressa às casas velhas, de facto seria caro, era necessária mt luz, e espaço para o morador não correr o risco de se fundir com a tela. Mas é mt interessante
Isto não é um delírio
Meu caro Ar Lindo, isso quer dizer que eu ando a meter-me com um espião?
Vou já arrepiar caminho...
Meu caro Ar Lindo, isso quer dizer que eu ando a meter-me com um espião?
Vou já arrepiar caminho...
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