2011-11-17

Insanidade e mentira

Não houve nenhuma guerra, não houve nenhum terramoto, não houve nenhuma outra catástrofe natural ou induzida. O que temos hoje é o que tínhamos em 2008. Mas em 2008 éramos ricos e hoje somos pobres.
Porquê?
Basicamente, porque perdemos as ilusões e, com as ilusões, a confiança.
A confiança é o único real valor de mercado. Com ela e sem mais nada, tudo é possível. Sem ela e com tudo o resto, nada se consegue.
Acontece que a confiança – como quase todos os valores – não é performativa, não se estabelece só por ser proclamada. Ao invés, há sempre boas razões para desconfiar de quem se declara sempre confiante.
Esse é o problema da Europa, hoje. Tem líderes que se limitam a professar constantemente a sua infinita confiança, mas não tem líderes confiáveis. Dito de outro modo, não tem líderes, porque a capacidade de liderar outra coisa não é do que a capacidade de inspirar confiança.
A confiança não se cria com grandes profissões de fé optimistas, como aquelas com que, a cada passo para o abismo final, os eurocratazinhos correm a bombardear-nos. Gera-se com a verdade.
E hoje, na Europa, tudo é mentira: é a mentira de que está tudo sob controle; é a mentira de que alguém sabe o que anda a fazer; é a mentira de que a culpa é dos funcionários públicos e dos restantes trabalhadores que ganham demais, desequilibram as contas públicas e retiram competitividade às economias; é a mentira de que se combate a crise com políticas recessivas que reduzem o consumo e aumentam o desemprego; é a mentira de que a culpa é dos especuladores que são maus; e das agências de rating que têm inconfessáveis agendas escondidas…
É a mentira de que se está muito confiante e se tem muita fé no futuro.
Com o desespero, nasceu agora uma última mentira: a de que todos os nossos males se resolvem e as portas do céu se nos abrem nos quadros de uma união política, de uma Federação Europeia. Ainda hoje, Fernando Ulrich – habitualmente sensato e pouco dado ao dislate – o proclamou numa conferência de imprensa.
É já o desnorte dos insanos.
Será que ignoram que não houve nunca, não há e, com toda a certeza, não haverá nos anos mais próximos união alguma?
Será que não sabem que – tirando os devedores desejosos de verem as suas dívidas pagas pela Alemanha – ninguém quer união alguma?
Será que já se esqueceram do modo como o processo de ratificação do aborto chamado inicialmente “Constituição Europeia” e depois “Tratado de Lisboa” teve que ser subtraído ao voto dos povos e processado de forma atolambada no silêncio esconso dos gabinetes de Bruxelas?
Será que – dez anos depois – já não se lembram do que se passou nos Balcãs?
Será que ignoram que qualquer união política postula uma política externa e de defesa comum e que isso é completamente impossível entre os países europeus? Ou só fingem ignorar, para melhor enterrar a cabeça na areia?
Líderes europeus, dignos desse nome, assumiam agora, com clareza e sem tergiversações, o erro colossal que foi a união monetária e a sua insustentabilidade e preparavam com cuidado, seriedade e coragem o processo do seu desmantelamento, de forma a minimizar os inevitáveis prejuízos nele implicados.
Somos todos diferentes na Europa e não devemos permitir que aquilo que nos separa destrua o muito que nos une. Se cometemos um erro, forçando a união do que não é uno, corrijamo-lo prontamente e anulemos essa união espúria, capaz de nos dividir naquilo em que estamos unidos.
Mas na Europa não há hoje líderes. Só gentinha acagaçada e de cabeça perdida que, sem fazer a mais leve ideia para onde vai, incha o peito atemorizada, exibe galões tecnocráticos e urra fanfarrona, estar confiante no caminho.
Como se fosse de tecnocratas que nós precisássemos neste momento…
Ao contrário de
Paulo Rangel, a nomeação de Monti não acendeu em mim um fiozinho de esperança. Encharcou de água um pavio há muito apagado.

14 lembraram-se de contestar:

AR disse...

"Os muito ricos são diferentes de nós”, disse. Scott Fitzgeral

Ê, eles têm mais dinheiro do que nós”, retrucou. Hemingway.

rps disse...

"Somos todos diferentes na Europa e não devemos permitir que aquilo que nos separa destrua o muito que nos une. Se cometemos um erro, forçando a união do que não é uno, corrijamo-lo prontamente e anulemos essa união espúria, capaz de nos dividir naquilo em que estamos unidos.
Mas na Europa não há hoje líderes. Só gentinha acagaçada e de cabeça perdida que, sem fazer a mais leve ideia para onde vai, incha o peito atemorizada, exibe galões tecnocráticos e urra fanfarrona, estar confiante no caminho".

Substituindo "Europa" por "Portugal" o postulado mantém-se verdadeiro.

Gi disse...

Como de costume, Funes, dou-lhe inteira razão.

500 disse...

O velho capitalismo, que produzia com base nas expectativas (naturais ou induzidas) das necessidades dos consumidores, tendo em conta o mercado potencial, expectativas essas estribadas na confiança que os decisores políticos lhe mereciam (regras de jogo claras), acabou há muito, ruíu com estrondo. Há muito, quem decide é uma figura esdrúxula, sem rosto, que ninguém localiza, que dá pelo nome de Mercados. A sua existência é incontroversa e aceite como evidência, pelos efeitos. Tais Mercados, não se sabe bem porquê, entram com frequência em stress e não há remédio conhecido, salvo o caos, que acalme o paciente. Bom seria que uma qualquer fundação financiasse estudos que permitissem descobrir uma vacina ou um curativo. O Nobel estava assegurado. E, quem sabe?, uma consulta no psicólogo, psiquiatra ou neurologiista, e uns chás de ervas do Gerês poderiam resolver a coisa e acalmar o doente.

Funes, o memorioso disse...

Meu caro 500,essa entidade estranha a que chama Mercados e cujo funcionamento caprichoso o espanta e perturba não é senão, precisamente, o sistema de confiança a funcionar. Não tem segredos e o seu estudo já foi feito.
O que se passa é que indivíduos a agirem racionalmente podem produzir um resultado colectivo completamente irracional.
Dou-lhe dois exemplos:
1- Imagine um banco cuja saúde, embora sólida, já conheceu melhores dias. 500, que tem lá as suas poupanças, começa a ficar um pouco receoso de vir a perdê-las. Prudente e racional como é, decide transferi-las para outra instituição. Prudentes e racionais os outros depositantes fazem todos o mesmo. Naturalmente, o banco vai imediatamente à falência e só os primeiros clientes a levantar os seus fundos é que o conseguem. Os outros perdem praticamente tudo. Ou seja, uma atitude individual racional conduziu a um resultado colectivo desastroso.
2- 500 anda a pensar comprar um carro novo e fazer com ele um largo passeio pelo país instalando-se nos melhores hotéis e comendo nos melhores restaurantes. Tem dinheiro para isso, mas está receoso e a confiança no futuro não é grande. Estamos em crise e, embora a sua empresa transborde saúde, nos tempos que correm nunca se sabe quando é a roda da fortuna gira e tudo vai por água abaixo. Prudente e racional, decide adiar a compra do carro e a viagem. Todos os consumidores, inteligentes, prudentes e racionais, fazem o mesmo. Individualmente, a decisão é absolutamente sensata. Na prática, o conjunto dessas decisões fez diminuir brutalmente a procura e atirou a economia para a recessão.
Não há nenhum segredo nem nenhum conluio secreto de capitalistas especuladores a conspirar para levar o mundo à ruína. É tudo, só, teoria dos jogos.
Noutro exemplo, quando a Assembleia da República e o Presidente da República andam por aí a dizer: «comprem produtos portugueses», esse conselho só é eficaz se os outros parlamentos e os outros governos de outros países não fizerem exactamente a mesma coisa. Porque, se o fizerem, a economia portuguesa arruína-se.
Já pensou no paradoxo que envolve aquela prática publicitária que diz que «se encontrar mais barato, nós devolvemos a diferença»?

privada disse...

"Mas na Europa não há hoje líderes"

Foram os Estados europeus os responsáveis pela eleição de lideres como: Sarkozy, Berlusconi, Socrates, Aznar, Papandreou.

Há algo fundamental no comprometimento publico, a ética.
Todos os organismos públicos tem códigos de ética claros.

Faz parte do entendimento que, comprometida a ética, sem necessidade de prova jurídica, exista imediata suspensão do cargo. Assim é no privado e mt pior é o no publico.

Todos estes dirigentes desrespeitarm os fundamentos éticos ate ao limite maximo.

A Europa não soberana, que exige certificados de responsabilidade social, códigos de etica, e condutas de acordo com a etica, note-se bem a nivel mundial incluindo-se inclusive o respeito pelos animais, isto tudo para o seu mercado interno, mas não sendo soberana, nada pode fazer quanto à eleição destes estercos.

Apesar de o parlamento Europeu ter cada vez mais autonomia, o tratado de Lisboa nao cumpre a união politica e fiscal k se exige.

Por via disso, estercos de cada estado transitam para o BCE e outros organismos, funcionando ate esta transição como uma lavagem automatica do curriculo.

Os Estados que não pretendem a união politica e fiscal, sao Estados que pretendem explorar o seu povo, são Estados sem ética.

Devemos a nossa formação actual, a nossa tecnologia, as nossas vias, recursos à União Europeia.
Infelizmente só agora tomamos consciência dessa pertença.

Em 6 meses somos mais Europa do que alguma vez fomos. Do que me diz respeito, e considerando que a maioria dos jovens partilham desta opinião, k venha a união politica e fiscal. A soberania da Europa. Lutaremos ate ao fim. Ate porque nesta luta, poucos nacionais terão competência para lutar num mercado politico global.

Funes, o memorioso disse...

O problema, Privada, é que, para haver união, não basta que o Privada queira ser europeu. É preciso que os alemães também queriam ser europeus ou, pior do que isso, que os alemães o queiram a si na Europa. Não querem. Nem sequer como território conquistado e subjugado os alemães nos querem. Os custos de nos terem não são compensados pelo que eventualmente lhes pudéssemos dar. Portanto, a sua União continua a não ser mais do que uma fantasia. Para se tornar real, temos que invadir a Alemanha, nomear lá um governo de confiança e obrigá-los a aceitar-nos no seio da Europa.

privada disse...

Oh pá, acho que não podemos retirar do discurso Alemão essa conclusão de forma tao directa. Porque chega o Mestre a essa conclusão?

Admito mais depressa k perante um referendo o povo portugues, não aceitasse. Imagine logo as campanha populista e perda de soberania, perda de tachos ...

Vamos imaginar que se une Alemanha, França, Austria ... deixam de fora os pobres, k ate sao contra o federalismo porke deixam de ter controlo na receita despesa dos seus estados. Ok, França, Alemanha, Austria ficavam com um estrondo de moeda, diziam adeus a exportações, e o sistema bancário entrava em default. Portanto qual é o interesse, não percebo.

Podiam acabar com o união monetaria, mas mais uma vez ficava a Alemanha com uma moeda de estouro, mas sem mercado para exportação....

Sinceramente, nao creio, que a Alemanha seja contra o federalismo, acho é que a Alemanha não quer de modo nenhum k seja a França iluminada a liderar esse federalismo.
Nós, e todos os pobres, ka ja somos muitos ficarmos de fora, está fora de questão. A meu ver.... nao sei, mas...

privada disse...

Nao contei com o Reino Unido, o principal opositor, porke o Reino Unido já não conta para nada :-))))))))))))

500 disse...

Não posso deixar de concordar com o seu ao meu comentário, com uma excepção: os "mercados" não me espantam mas não deixam de me pertubar. Quem são os autores da perda de confiança? Quem faz dumping (económico e social)? Quem me envia um cartão dourado, não solicitado? Quem me dá crédito para compra de uma casa (avaliada por mais do que vou pagar) e me oferece mais uns "trocos" para a mobília e um carro novo? Quem atribui o rating a um país, para horas depois confessar que foi um erro, com consequências devastadoras? Que levou, de facto, ao pedido de demissão de António Borges do FMI para a Europa?
Em resumo: quem manipula e porquê a confiança, aspecto básico das transações, nacionais ou internacionais? Como nasceu a letra de câmbio ou o cheque? Como se faziam muitos negócios nas feiras francas, sem dinheiro à vista, apenas com a "palavra"? A questão, no fundo, é: quem destruiu a confiança?
Quem inventou os off shores e quem permitiu a sua instalação e a sua permanência? Continuo sem saber o que são os tais "mercados" e isso sim, perturba-me. Deve ser da idade e da minha incapacidade de entender os novos tempos.

Nuno Almeida disse...

O texto até ía bem encaminhado, mas a partir do momento que fala de Fernando Ulrich perde toda a credibilidade.

Além disso, este tipo de raciocínio pode-se aplicar a qualquer parte do globo onde quer que haja uma "União" de qualquer tipo ou uma "Federação"/ grande país.

"Se há ou houve conflitos, se há multiculturalidade não podem estar unidos."
Não me parece.

Nuno Almeida disse...

O "itálico" acima não é uma citação, obviamente.

pbl disse...

Filosofia barata!

Funes, o memorioso disse...

Perfeitamente de acordo, PBL. Ao contrário da sua da da sua família política, que nos vai sair a todos muito cara.