Todos os amigos com quem tenho conversado nos últimos dias estão de acordo quanto a dois ou três pontos sobre a crise que atravessamos: que a situação se tornou absolutamente insustentável; que se aproxima a hora decisiva; que não há margem para mais cimeiras de promessas adiadas; que as medidas indispensáveis para salvar o euro têm que ser tomadas já ou o euro rebenta e, com ele, toda a União Europeia que empobrecerá desmesuradamente, tornando-se completamente irrelevante no concerto das nações, com consequências absolutamente imprevisíveis para todo o mundo, mas seguramente desastrosas.
Todos estão de acordo, também, que as medidas anunciadas ontem pelo casal Merkel-Sarkozy se assemelham mais às condições de um armistício imposto a um beligerante derrotado do que a propostas sérias que se façam a parceiros livres e iguais. Todos reconhecem ainda - mesmo quando reputam tais decisões de necessárias - que o passe de magia que há-de salvar o euro não é, seguramente, a ameaça de multas aos incumpridores nem uma fantasiosa revisão dos tratados que, na hipótese improvável ser possível, levaria mais tempo a concretizar do que aquele de que se dispõe para salvar a moeda única.
A verdade, porém, é que, aceitando e reconhecendo isto tudo, nenhum aceita ou assume a óbvia conclusão que decorre de todas estas premissas: a de que estamos completamente perdidos.
Invariavelmente, todos acreditam piamente que na última hora, por um milagre qualquer vindo de Berlim, o euro há-de ser salvo e os dias hão-de retomar o seu curso normal e tranquilo.
Quando lhes pergunto a razão de ser de tão absurda crença que nenhuma evidência apoia ou fundamenta, respondem-me com segurança: «porque era estúpido que assim não fosse, porque a própria Alemanha teria tudo a perder».
E quando lhes noto que isso também foi verdade mil vezes no passado e que nem por isso guerras que ninguém estava interessado em desencadear (como a primeira mundial ou a primeira do Golfo) foram evitadas, encolhem os ombros e limitam-se a redarguir-me, já exclusivamente entregues sem reservas nem argumentos à esperança vã e ao wishful thinking: «é diferente, agora é diferente».
Têm razão numa coisa: é estúpido.
Não a têm quando ignoram que o estúpido pode acontecer, mesmo sendo estúpido. Que em certas circunstâncias, é até uma fatalidade que o estúpido aconteça.
Suspeito que a crise actual do euro regista uma dessas infelizes circunstâncias.
O problema dos meus amigos é que arrancam a sua fé de uma racionalidade estritamente linear, onde o bem é uno e indivisível, onde o interesse individual coincide com o interesse colectivo e o interesse de curto prazo, com o interesse de longo prazo. Onde - para recordar uma infeliz e néscia declaração de Cavaco Silva, dois seres racionais e dispondo da mesma informação chegam fatalmente à mesma conclusão.
Todos estão de acordo, também, que as medidas anunciadas ontem pelo casal Merkel-Sarkozy se assemelham mais às condições de um armistício imposto a um beligerante derrotado do que a propostas sérias que se façam a parceiros livres e iguais. Todos reconhecem ainda - mesmo quando reputam tais decisões de necessárias - que o passe de magia que há-de salvar o euro não é, seguramente, a ameaça de multas aos incumpridores nem uma fantasiosa revisão dos tratados que, na hipótese improvável ser possível, levaria mais tempo a concretizar do que aquele de que se dispõe para salvar a moeda única.
A verdade, porém, é que, aceitando e reconhecendo isto tudo, nenhum aceita ou assume a óbvia conclusão que decorre de todas estas premissas: a de que estamos completamente perdidos.
Invariavelmente, todos acreditam piamente que na última hora, por um milagre qualquer vindo de Berlim, o euro há-de ser salvo e os dias hão-de retomar o seu curso normal e tranquilo.
Quando lhes pergunto a razão de ser de tão absurda crença que nenhuma evidência apoia ou fundamenta, respondem-me com segurança: «porque era estúpido que assim não fosse, porque a própria Alemanha teria tudo a perder».
E quando lhes noto que isso também foi verdade mil vezes no passado e que nem por isso guerras que ninguém estava interessado em desencadear (como a primeira mundial ou a primeira do Golfo) foram evitadas, encolhem os ombros e limitam-se a redarguir-me, já exclusivamente entregues sem reservas nem argumentos à esperança vã e ao wishful thinking: «é diferente, agora é diferente».
Têm razão numa coisa: é estúpido.
Não a têm quando ignoram que o estúpido pode acontecer, mesmo sendo estúpido. Que em certas circunstâncias, é até uma fatalidade que o estúpido aconteça.
Suspeito que a crise actual do euro regista uma dessas infelizes circunstâncias.
O problema dos meus amigos é que arrancam a sua fé de uma racionalidade estritamente linear, onde o bem é uno e indivisível, onde o interesse individual coincide com o interesse colectivo e o interesse de curto prazo, com o interesse de longo prazo. Onde - para recordar uma infeliz e néscia declaração de Cavaco Silva, dois seres racionais e dispondo da mesma informação chegam fatalmente à mesma conclusão.
No fundo, como Sarkozi, como Merkel, como Passos Coelho, não conhecem ou não querem reconhecer que vivemos no tempo presente um verdadeiro dilema do prisioneiro e que hoje, mais uma vez, quando cada um de nós, individualmente, escolhe aquilo que é do seu interesse próprio, pode ficar pior do que ficaria se tivesse sido feita uma escolha que fosse do interesse colectivo.
Defendi, desde o início, que à frente e a controlar esta crise deviam estar, não os habituais e ignorantes burocratas contabilistas, mas matemáticos com conhecimentos sólidos de teorias dos jogos. Agora, suspeito, é demasiado tarde. Já nada nos deve salvar.
Os que não querem ver dirão, depois, que a culpa foi dos especuladores. Ou demonstrarão a existência de uma grande conspiração americana...


14 lembraram-se de contestar:
Já há quem diga isso, Funes, ainda ontem ouvi essa tese ao jornalista José Gomes Ferreira na SIC.
jogos jogos jogos mas ha mais nao me lembro
Não querendo branquear a actuação dos políticos europeus, será que alguém duvida que estes ataques constantes das Agências de Rating se destinam a outra coisa que não seja beneficiar a casa (EUA)?
Não duvido, mas há uma cena, se antes tivessemos credibilizado a nossa propria agencia, agora a cena seria entre elas. Mas os EUA nao vao vencer, fogo ,obesos.
Sou dos que esperam que a "guerra", não necessária como outras, não se repita. Começo, porém, a recear que venhamos a ter por aí uma segunda idade das trevas. Será que a Alemanha não vê que sozinha não consegue navegar no mar cão em que a UE (ou a euro-zona) se encontra? Aguardemos os telejornais de sexta-feira.
Ó Nuno Aleida, mas o que é que os EUA ganham rebentando com o euro? A crise que daí resulte não atinge os EUA com a mesma violência que atinge a Europa? Não têm os EUA já problemas que cheguem? E agências de rating não têm vindo também a dar notas negativas aos próprios EUA? E algum investidor acreditava nas agências de rating se elas se regessem por outros critérios que não o risco das entidades que avaliam? Se fosse assim, bastaria criar uma agência para dizer bem dos países da zona euro. E até os destituídos burocratas de Bruxelas que se lembraram disso se aperceberam imediatamente da estupidez que isso seria.
Não há conspiração alguma. Há apenas os agentes económicos todos a tentarem, racionalmente, maximizar os seus proveitos e minimizar as suas perdas numa conjuntura e que disso resulta o pior para todos.
O problema, 500, é que a Alemanha (como a França, como Portugal, como os EUA ou a China) não vê nada nem tem vontade própria. Os Estados são meras abstracções sem vontade própria.
O que eu acho é que Funes precisa de mudar de amigos.
O conceito clássico de Estado está, na Europa e em grande parte do mundo ocidental, desactualizado. Não cola com a realidade.
O mundo mudou em 1945 e voltou a mudar na passagem dos anos 80 para os 90. Ora, para novas realidades, novas soluções. Mas o mundo ocidental, instalado em múltiplos confortos que teme perder, agarra-se às velhas. Corolário: estamos f....
Eu e Funes bem que avisamos.
Espanta-me que este ainda não tenha vindo deitar os foguetes.
O que eu pense é que Funes, el vidente perdeu a sua visão artística e não percebe a beleza da Europa unida e que por esse mesmo motivo não consegue perceber as dificuldades que é natural existirem para manterem esta mesma beleza.
O problema está nas comissões. Os "espertos" sabem que as comissões são o melhor ganho com maior propensão para gerar rendimentos líquidos. Vai daí, toca a porem uma horda de escravos a trabalhar para eles (mais ou menos como os romanos faziam, quando descobriram as virtualidades do comércio). O importa não é se quem compra ou vende o produto sabe o que é. O que importa é que isso gera uma comissão para quem o vende, revende, etc., etc.. E assim um produto que tem um valor real de 1 passa a valer 100. Quem perdeu? quem ficou com ele, a final. Quem ganhou sempre? quem intermediou nas trocas. Mas isto é uma evidência tão grande que nem terá dignidade para constar num blog como este.
RPS: fala do Estado.
Conheço 3.
O sólido, de que não falo.
O líquido, não falo de que.
O gasoso.
O gasoso, também não esmiuço - por ser o Estado de Arlindo do Rego.
E, por aqui me fico.
Funes e C.ª já seguiram o conselho do PM e emigraram?
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