2011-12-06

Da natureza não linear da racionalidade

Todos os amigos com quem tenho conversado nos últimos dias estão de acordo quanto a dois ou três pontos sobre a crise que atravessamos: que a situação se tornou absolutamente insustentável; que se aproxima a hora decisiva; que não há margem para mais cimeiras de promessas adiadas; que as medidas indispensáveis para salvar o euro têm que ser tomadas já ou o euro rebenta e, com ele, toda a União Europeia que empobrecerá desmesuradamente, tornando-se completamente irrelevante no concerto das nações, com consequências absolutamente imprevisíveis para todo o mundo, mas seguramente desastrosas.
Todos estão de acordo, também, que as medidas anunciadas ontem pelo casal Merkel-Sarkozy se assemelham mais às condições de um armistício imposto a um beligerante derrotado do que a propostas sérias que se façam a parceiros livres e iguais. Todos reconhecem ainda - mesmo quando reputam tais decisões de necessárias - que o passe de magia que há-de salvar o euro não é, seguramente, a ameaça de multas aos incumpridores nem uma fantasiosa revisão dos tratados que, na hipótese improvável ser possível, levaria mais tempo a concretizar do que aquele de que se dispõe para salvar a moeda única.
A verdade, porém, é que, aceitando e reconhecendo isto tudo, nenhum aceita ou assume a óbvia conclusão que decorre de todas estas premissas: a de que estamos completamente perdidos.
Invariavelmente, todos acreditam piamente que na última hora, por um milagre qualquer vindo de Berlim, o euro há-de ser salvo e os dias hão-de retomar o seu curso normal e tranquilo.
Quando lhes pergunto a razão de ser de tão absurda crença que nenhuma evidência apoia ou fundamenta, respondem-me com segurança: «porque era estúpido que assim não fosse, porque a própria Alemanha teria tudo a perder».
E quando lhes noto que isso também foi verdade mil vezes no passado e que nem por isso guerras que ninguém estava interessado em desencadear (como a primeira mundial ou a primeira do Golfo) foram evitadas, encolhem os ombros e limitam-se a redarguir-me, já exclusivamente entregues sem reservas nem argumentos à esperança vã e ao wishful thinking: «é diferente, agora é diferente».
Têm razão numa coisa: é estúpido.
Não a têm quando ignoram que o estúpido pode acontecer, mesmo sendo estúpido. Que em certas circunstâncias, é até uma fatalidade que o estúpido aconteça.
Suspeito que a crise actual do euro regista uma dessas infelizes circunstâncias.
O problema dos meus amigos é que arrancam a sua fé de uma racionalidade estritamente linear, onde o bem é uno e indivisível, onde o interesse individual coincide com o interesse colectivo e o interesse de curto prazo, com o interesse de longo prazo. Onde - para recordar uma infeliz e néscia declaração de Cavaco Silva, dois seres racionais e dispondo da mesma informação chegam fatalmente à mesma conclusão.
No fundo, como Sarkozi, como Merkel, como Passos Coelho, não conhecem ou não querem reconhecer que vivemos no tempo presente um verdadeiro dilema do prisioneiro e que hoje, mais uma vez, quando cada um de nós, individualmente, escolhe aquilo que é do seu interesse próprio, pode ficar pior do que ficaria se tivesse sido feita uma escolha que fosse do interesse colectivo.
Defendi, desde o início, que à frente e a controlar esta crise deviam estar, não os habituais e ignorantes burocratas contabilistas, mas matemáticos com conhecimentos sólidos de teorias dos jogos. Agora, suspeito, é demasiado tarde. Já nada nos deve salvar.
Os que não querem ver dirão, depois, que a culpa foi dos especuladores. Ou demonstrarão a existência de uma grande conspiração americana...

14 lembraram-se de contestar:

Gi disse...

Já há quem diga isso, Funes, ainda ontem ouvi essa tese ao jornalista José Gomes Ferreira na SIC.

privada disse...

jogos jogos jogos mas ha mais nao me lembro

Nuno Almeida disse...

Não querendo branquear a actuação dos políticos europeus, será que alguém duvida que estes ataques constantes das Agências de Rating se destinam a outra coisa que não seja beneficiar a casa (EUA)?

privada disse...

Não duvido, mas há uma cena, se antes tivessemos credibilizado a nossa propria agencia, agora a cena seria entre elas. Mas os EUA nao vao vencer, fogo ,obesos.

500 disse...

Sou dos que esperam que a "guerra", não necessária como outras, não se repita. Começo, porém, a recear que venhamos a ter por aí uma segunda idade das trevas. Será que a Alemanha não vê que sozinha não consegue navegar no mar cão em que a UE (ou a euro-zona) se encontra? Aguardemos os telejornais de sexta-feira.

Funes, o memorioso disse...

Ó Nuno Aleida, mas o que é que os EUA ganham rebentando com o euro? A crise que daí resulte não atinge os EUA com a mesma violência que atinge a Europa? Não têm os EUA já problemas que cheguem? E agências de rating não têm vindo também a dar notas negativas aos próprios EUA? E algum investidor acreditava nas agências de rating se elas se regessem por outros critérios que não o risco das entidades que avaliam? Se fosse assim, bastaria criar uma agência para dizer bem dos países da zona euro. E até os destituídos burocratas de Bruxelas que se lembraram disso se aperceberam imediatamente da estupidez que isso seria.
Não há conspiração alguma. Há apenas os agentes económicos todos a tentarem, racionalmente, maximizar os seus proveitos e minimizar as suas perdas numa conjuntura e que disso resulta o pior para todos.

Funes, o memorioso disse...

O problema, 500, é que a Alemanha (como a França, como Portugal, como os EUA ou a China) não vê nada nem tem vontade própria. Os Estados são meras abstracções sem vontade própria.

pbl disse...

O que eu acho é que Funes precisa de mudar de amigos.

rps disse...

O conceito clássico de Estado está, na Europa e em grande parte do mundo ocidental, desactualizado. Não cola com a realidade.
O mundo mudou em 1945 e voltou a mudar na passagem dos anos 80 para os 90. Ora, para novas realidades, novas soluções. Mas o mundo ocidental, instalado em múltiplos confortos que teme perder, agarra-se às velhas. Corolário: estamos f....
Eu e Funes bem que avisamos.

pbl disse...

Espanta-me que este ainda não tenha vindo deitar os foguetes.

Nuno Almeida disse...

O que eu pense é que Funes, el vidente perdeu a sua visão artística e não percebe a beleza da Europa unida e que por esse mesmo motivo não consegue perceber as dificuldades que é natural existirem para manterem esta mesma beleza.

jama disse...

O problema está nas comissões. Os "espertos" sabem que as comissões são o melhor ganho com maior propensão para gerar rendimentos líquidos. Vai daí, toca a porem uma horda de escravos a trabalhar para eles (mais ou menos como os romanos faziam, quando descobriram as virtualidades do comércio). O importa não é se quem compra ou vende o produto sabe o que é. O que importa é que isso gera uma comissão para quem o vende, revende, etc., etc.. E assim um produto que tem um valor real de 1 passa a valer 100. Quem perdeu? quem ficou com ele, a final. Quem ganhou sempre? quem intermediou nas trocas. Mas isto é uma evidência tão grande que nem terá dignidade para constar num blog como este.

AR malus disse...

RPS: fala do Estado.

Conheço 3.

O sólido, de que não falo.

O líquido, não falo de que.

O gasoso.
O gasoso, também não esmiuço - por ser o Estado de Arlindo do Rego.

E, por aqui me fico.

500 disse...

Funes e C.ª já seguiram o conselho do PM e emigraram?