Vozes prudentes advertiram em tempo oportuno contra a insensatez da introdução de uma moeda única na Europa, sem a constituição simultânea, se não de uma união política verdadeira, ao menos de uma política orçamental e fiscal comum. Claro está que os que assim avisadamente reflectiam foram pelos burocratas de serviço expeditamente rotulados de infames e cegos eurocépticos que não viam (não queriam ver) que a união política havia de ser construída a partir a união monetária. Quando a Europa toda partilhasse uma só moeda, o resto viria por acréscimo e acumulação de felicidade. A união política construir-se-ia então por si mesma e os povos todos da Europa poderiam, por fim, festejar o termo da História e os eternos nasceres e pores-do-sol cantantes. Para tanto, bastava que os europeus se abstivessem de se pronunciar sobre o seu futuro, renunciando a referendos sobre tratados e matérias só ao alcance do espírito iluminado das vanguardas esclarecidas de Bruxelas.De fantasia em fantasia, chegámos ao actual desastre. Agora, os mesmos que até aqui nos trouxeram anunciam ufanos, como se fossem virgens e visionários, a sua última grande descoberta: afinal está tudo bem e, se o euro não vive dias felizes, a culpa é dos especuladores (o outro nome dos eurocépticos) que não querem a união política nem fiscal que nos há-de guiar à união monetária. Mais ufanos e visionários ainda, prometem essa união para a próxima sexta-feira, exigindo-nos desde já o tributo da eterna gratidão pela sua descoberta. E o silêncio submisso e confiante, com expressa renúncia a referendos e ideias próprias, que isto de montar futuros radiantes - já tínhamos obrigação de o saber - é matéria só ao alcance do espírito iluminado das vanguardas esclarecidas de Berlim e Paris (estas últimas, apenas para acenarem que sim com a cabeça).
Tudo o que é preciso – garantem-nos – é de mudar os tratados e impor disciplina orçamental; pôr na ordem os PIGS, obrigando-os a reduzir as suas dívidas para 60% dos respectivos PIBs. Com tratados e disciplina, a ordem natural do mundo restabelecer-se-á e daqui a seis meses a Europa será de novo o invejado farol da humanidade.
Evidentemente, a Senhora Merkel e o seu criado Sarkozi não ignoram que mentem. Não ignoram que os tratados não se mudam assim, por um diktat do Reich. E não ignoram que as populações dos países disciplinados não vão colaborar passiva e bovinamente na sua subjugação, celebrando cordeiramente o 9 de Maio e Jean Monnet, como se estivessem a construir a união europeia e não a submeter-se à miséria imposta pela dominação alemã.
Evidentemente, não ignoram que as regras de disciplina orçamental que agora proclamam não foram aplicadas antes, não porque não estivessem previstas, mas porque foram logo no início do euro torpedeadas pela própria França que, por não poder ser sancionada, tornou caduca (para gáudio e glória dos PIGS) a regra do limite dos três por cento para o desequilíbrio orçamental.
Evidentemente, não ignoram que, a não ser para torpedear as regras no futuro, como as torpedeou no passado, a França hoje não risca nada. Desde Napoleão que não risca nada.
Evidentemente, não ignoram que a dita grande estratégia para a cimeira de sexta feira é apenas simulação e procrastinação, que tudo na Europa é hoje simulação e procrastinação. Como simulação e procrastinação são os 5,9% de défice anunciados por Passos Coelho e obtidos (à semelhança das contas todas dos anos que antecederam a sua governação) por meio de uma mera operação de contabilidade martelada, que, sem qualquer sustentabilidade económica, sem alterar o essencial descontrole das contas públicas, trocou despesas futuras do fundo de pensões da banca por receitas presentes. Só para parecer que se fez o que a Alemanha mandava. Sabendo todos que não se fez.
O problema é que Merkel e Sarkozi não têm outra escolha. Estão em pânico. Sabem que – ao não assumirem com frontalidade e clareza que a Europa há muito acabou – nos conduziram a este buraco de onde não há a mais remota possibilidade de saída. No meio do medo, a mentira, a simulação e a procrastinação confortam-nos e dão-lhes uma ilusão de acção e de esperança.
Esperança vã. Os seus actos já não são só mentirosos. Agora, são também criminosos.
A agonia e o estertor começam na sexta-feira. Ou será que antes da tragédia final, a ilusão ainda vai ter que passar pela vergonha da alucinação?


4 lembraram-se de contestar:
Receio que o seu Grito nada resolva. Sendo, como é, pessimista militante, as coisas só podem melhorar. Isso se frau Merkel alcançar os seus objectivos. Que vai atingir, já que de outro modo arrisca-se a ir ao charco, o que não estará nos seus planos. Ainda a vamos ver a repartir a sua residência oficial entre Berlim e o Eliséu, com suite própria no Quirinal. Para Portugal basta nomear um secretário do embaixador em Lisboa que, quando necessário, convoca Passos Coelho para lhe entregar as instruções recebidas de Berlim. Um Novo Mundo (não o o H.G.Wells) nos espera e novos amnhãs cantarão. Vai ver.
Entretanto, Cavaco, seguindo o conselho de Berardo, abdica.
Isto já parece o Evangelo Segundo Funes, el Memorioso.
Um dia ainda o vamos ver de cajado na mão a abrir o oceano ou então a construir a arca.
Funes, ufano!
Ou, melhor, o fauno.
Não foi o AR que escreveu o "andam faunos nos bosques"
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