2009-07-09

Teoria das probabilidades

Ouço nas rádios e nas televisões que, lá para Outubro ou Novembro, a probabilidade de cada um nós apanhar a gripe A (H1N1) é de um para quatro. Ao mesmo tempo, leio nos jornais que, por causa da pandemia, muitos turistas estão a cancelar as viagens de férias que tinham marcadas.
Face aos dados disponíveis, o cancelamento parece-me irracional. É certo que há alguma probabilidade acrescida de apanhar a gripe A nos aeroportos e noutros lugares de concentração elevada de pessoas de variadas proveniências. Mas eu pergunto-me: dada a enormíssima probabilidade anunciada de apanhar a gripe em Outubro ou Novembro, não é preferível correr o risco de a apanhar já, quando não falta ainda no mercado o Tamiflu e os serviços de saúde não esgotaram a sua capacidade de atendimento?

Lembrete

Vivemos num tempo dominado pelo excesso de conhecimento e pelo défice de sabedoria e de memória: hei-de explorar este mote em dois ou três posts próximos que me andam a bailar na cabeça.

Do título dos livros

A história do homem que tinha três sonhos e uma lambreta; Apolónio Cansado da Rocha aguarda o fim da missa; Caem peras verdes ao nascer da tarde; Os olhos azuis de Amélia Rey Colaço; Não vás de férias e fica a ver o pôr-do-sol nos jardins da tristeza; O mar da ondas paradas; Era Lisboa e tu choravas... Tudo isto são títulos possíveis de romances contemporâneos. O título tornou-se uma mera operação de marketing, um chamariz, um grito dirigido à carteira do leitor. Ninguém seria hoje tão estúpido, que se lembrasse sequer de olhar para uma obra de ficção chamada Os Maias ou A Capital. O título revelaria imediatamente não haver nada lá dentro.

Perdi na semana passada. Talvez ganhe para a semana

Afinal, aqui enganei-me. Não foi na Birmânia que ocorreu a causa da semana. Foi em Xinjiang.
Não sei como é que andam as bolsas das apostas, mas eu arrisco dez euros em como na semana que vem a causa vai acontecer em África, talvez em Asmara, talvez em Mogadíscio.

Julgavam que tinha acabado, não julgavam?

Pois, também eu. Só que hoje acordei com um nome irresistível na cabeça: ZUBIZARRETA

2009-07-08

Para acabar de vez com as palavras engraçadas

Abegão
Abencerragem
Anexim
Azémola
Bacoco
Badalhoca
Banha
Beldroegas
Besuntar
Betoneira
Bexigoso
Bezerra
Bisnaga
Bordoada
Bule
Buzina
Calhorda
Catota
Chafurdar
Carcomido
Coche
Carrapito
Cróia
Detritos
Engonhar
Esborrachar
Escangalhar
Esguicho
Estafermo
Faceira
Ferrolho
Focinheira
Forquilha
Fosfato
Fressura
Frosques
Gafurino
Galhofa
Gatuno
Gentalha
Gonorreia
Gorda
Hecatombe
Impropério
Javardice
Labrego
Lambão
Lambisgóia
Lavoura
Lopes
Macabeu
Melgaço
Népias
Pança
Pancão
Pecheira
Pilantra
Pingarelho
Pirólise
Pirolito
Podão
Pólipo
Protozoário
Quilhar
Sanfona
Sapucaia
Semilha
Serigaita
Traquitana
Texugo
Trafulha
Trintona
Trombas
Unto
Vacarrona
Xafarraz
Zebróide
Zebu
Zelota

Ouvido de passagem: diálogo em feminino gordo, numa rua de Gondomar

- Olha quem ela é, a Zirinha! Estás boa, mulher? Ai que há tantos anos que num te bia, caralho!
-
Bem sei, parece um monólogo. Mas era um diálogo. Eu é que, a caminhar, já não ouvi o resto.

Uma palavra brasileira engraçada por dia (Zekez Carvalho)

Manjada (significa sabida ou experiente? Ou ambas? Recordo-me de uma frase da BD de Walt Disney, que em Portugal líamos em edição brasileira: "Aquela é Paula Piranha, uma caça-dotes muito manjada.").

Uma palavra alemã engraçada por dia

Krankenschwester

Matinal dislate

Acordo com o nome "Purificación García" na cabeça. Ocorre-me, sei lá porquê, que se tivesse que lançar hoje uma marca de roupa e acessórios lhe chamaria "Cornificación Balboa".

2009-07-07

E se me apetecer partilhar um coro ao fim da noite?

Roubado aqui

Circuito da Boavista


(clicar nas imagens para aumentar)

7 Julho 2009, dia 1 da nova época




Obrigado, Pedro.

Conflito de gerações

Influenciada pelas más companhias, ela chega-me a casa a dizer que quer frequentar aulas de equitação.
Nada me parece mais absurdo. Havendo no mundo confortáveis e apelativos automóveis, motas e bicicletas, como é que alguém pode desejar andar em cima de bestas refocilantes e repelentes que dão coices?
Proponho-lhe que faça antes um piercing no nariz, outro nos beiços e cinco em cada orelha; sugiro-lhe a tatuagem de uma ferradura em cada bochecha; avanço-lhe a ideia de rapar o cabelo todo e deixar só uma faixa azul empinada na parte de trás da cabeça. Não adianta. Ela insiste nas aulas de equitação.
Eu só quero que todos sejam felizes. E tal como não tolero que outros definam em que é que deve consistir a minha felicidade, também nunca meço a felicidade dos outros pela minha. Não imponho os meus critérios e acedo ao equídeo dislate.
Agora, levo-a todos os dia de manhã, com uma amiga, ao centro hípico. A cem metros do portão, já cheira a merda.
Ela parece encantada.

Uma palavra brasileira engraçada por dia (ZekezCarvalho)

Pingolim (a pedido da Marta).

O leão de Rio Maior

2009-07-06

Da Ronáldica loucura

Eu posso compreender que 80.000 gajos encham um estádio, para ver uma miúda despir a camisola. Mas que 80.000 gajos encham um estádio, para ver um miúdo vestir a camisola, é coisa que não me entra na cabeça.

Das más escolhas

Pouco depois de escrever este post, tive uma larga discussão com RPS. Eu não conseguia ver diferença absolutamente nenhuma entre a indigência governativa de Santana Lopes e a indigência governativa de Sócrates. Para mim, os dois eram farinha do mesmo saco, o saco da propaganda pura, inventado por Tony Blair e que consistia em fazer da política uma simples actividade de gestão permanente da imagem. Dava, por isso, ao governo socialista seis a sete meses de vida. RPS garantia-me que ele cumpriria a legislatura.
Hoje sabemos que RPS leu melhor a realidade. Eu cometi dois erros infantis: subestimei a capacidade das agências de comunicação de Sócrates e sobrestimei a capacidade de revolta dos eleitores. Os portugueses - contra toda a evidência - quiseram à força dar uma oportunidade a Sócrates.
Hoje, os resultados estão à vista: o país divergiu da Europa como nunca tinha acontecido nos últimos 80 anos e o governo de Sócrates - cuja capacidade agregadora dependia exclusivamente da crença generalizada que era imbatível - despenha-se descontrolado pela ladeira do descrédito abaixo.
Neste contexto, alguma coisa pode impedir Manuela Ferreira Leite de vencer de forma estrondosa as eleições de Setembro?
Pode. As suas escolhas.
É insultuoso para Manuela Ferreira Leite compará-la com as nulidades que são Guterres, Barroso, Santana e Sócrates. Mas a grosseira, patente e absoluta incompetência destes não deve levar-nos a depositar demasiadas esperanças na senhora. Ela é fraquinha, muito fraquinha.
A sua vitória nas europeias não foi directamente uma vitória dela. Foi uma vitória de Paulo Rangel, esse, sim, uma positiva e esperançosa novidade no espectro político do regime.
É verdade que foi Manuela Ferreira Leite quem escolheu Rangel para cabeça de lista às europeias. É verdade que o escolheu, quando muito outros (eu incluído) recomendavam, porventura estupidamente, a escolha de Marques Mendes. É verdade que, ao escolhê-lo, o fez por sua conta e risco, contra tudo e contra todos. Desse ponto de vista, venceu e convenceu.
Acontece, porém, que - como também logo reconheci no Entre Deus e o Diabo - ao escolher Rangel, Manuela Ferreira Leite escolhia o melhor que tinha. E, ao escolhê-lo para as europeias, alienou-o para as legislativas.
Hoje, Manuela Ferreira Leite vai fazer uma campanha para as legislativas, sem poder contar com o nome forte de Rangel. E ela, por si, vale pouco; vale apenas o descontentamento com a governação de Sócrates.
Pior, muito pior, a campanha vai decorrer em simultâneo com a campanha para as autárquicas. E aí Ferreita Leite vai ter que contar com outra das suas escolhas: a insana candidatura de Santana Lopes à Câmara de Lisboa. De cada vez que Santana abrir a boca (e ele não consegue mantê-la fechada), mesmo que seja exclusivamente para falar das autárquicas, o PSD vai perder votos nas legislativas. Muitos votos, porque Santana representa a continuidade do desgoverno que começou em Guterres e é a negação absoluta de tudo o que Manuela Leite quer ser e efectivamente representa.
É por isso que a escolha de Santana Lopes é inconcebivelmente estúpida. Feita não em nome do interesse nacional, não em nome do interesse de Lisboa, não, sequer, em nome dos interesses pessoais e políticos de Manuela Ferreira Leite, mas em nome de um odioso interesse clientelar de uma certa clique nula do PSD, associa - a troco de coisa nenhuma, como se viu nas europeias - o nome da líder àquilo que ela mais abomina e àquilo que pode constituir neste momento o único obstáculo à sua maioria absoluta. É estúpido.
Mais estúpido, só não mandar imediatamente Santana Lopes desaparecer até ao dia 27 de Setembro.
Alguma coisa pode impedir Manuela Ferreira Leite de vencer de forma estrondosa as próximas eleições?
Pode. As suas escolhas.

Circuito da Boavista

(clicar para aumentar)

Uma palavra brasileira engraçada por dia (Zekez Carvalho)

Piranha (na acepção de insulto dirigido por uma mulher a outra mulher; em rigor nem sei ao certo o que significa - embora imagine; ouve-se com frequência nas telenovelas e o ar de ódio e desprezo vincadamente feminino com que sempre é dito torna o insulto merecedor de figurar nesta antologia).

Obrigado, Patrícia

Já o disse aqui várias vezes, uma das fantasias recorrentes da minha infância era sonhar-me nos jogos olímpicos, na maratona, a entrar completamente isolado no estádio com a multidão em delírio, aproximar-me da meta sem absolutamente ninguém no meu encalço e, a cinco metros de cortar a linha final, desistir. Imaginava-me depois, feliz, a ler os insultos dos jornais e das televisões e a ser insultado na rua pelos meus compatriotas. Ninguém me poderia oferecer melhor destino.
Quem me conhece sabe que a ira (mais), a gula e a luxúria (menos) são os meus pecados. Poucos me condenarão por causa da soberba ou da inveja, a não ser - se forem justos - por essa forma extrema de soberba que é o orgulho exarcebado até à humildade e à modéstia.
O homem é a medida de todas as coisas - disse um dia um sofista. "Sofista dos sofistas", como me acusou o meu amigo Constantino Castro, radicalizo esta máxima e reclamo-me a mim mesmo, só a mim mesmo, a medida de todas as coisas. O único juiz que respeito sou eu próprio; o único juízo que verdadeiramente me afecta, é o meu. Não me vejo, por isso, a rebaixar-me à glória e ao triunfo, que são públicos e exógenos. Ganhar uma maratona é coisa de fracos e de humanos que não conhecem o seu próprio valor e precisam da vitória para se medirem.
Sei o que valho, sei quais são as minhas forças e as minhas fraquezas, as minhas virtudes e os meus deméritos. O juízo alheio tende a ser generoso e benévolo. É-me indiferente.
A Patrícia Lousinha atribuiu há dias a este blogue um prémio Lemniscata que pretende distinguir os blogs que demonstram talento, seja nas artes, nas letras, nas ciências, na poesia ou em qualquer outra área e que, com isso, enriquecem a blogosfera e a vida dos seus leitores.
Os três filhos pequenos da TR não lhe têm deixado margem para colaborar neste blogue que ela sabe ser dela. Apesar de três ou quatro magníficos posts com que já nos brindou, o Zekez não tem ainda uma produção que justifique um prémio. O RPS acabou de entrar e, para além de felizes evocações cinematográficas ao domingo e de medonhas evocações musicais nos restantes dias da semana, não nos deu por enquanto nenhum contributo especialmente relevante. Concluo, por isso, ser eu o primeiro visado com o prémio da Patrícia.
Essa circunstância deixa-me encabulado. Temo parecer ingrato e indigno do tributo de amizade que aquele prémio significa. Mas ele não altera o juízo que faço sobre este blogue e que, repito, é o único juízo que me afecta.
A blogosfera abunda em mediocridade. De um modo geral, "Funes, el memorioso" eleva-se um pouco acima dessa geral mediocridade. Este, este e este post formam mesmo um conjunto genial. Expliquei aqui porquê. Não espero que essa explicação convença muita gente. É-me indiferente. Eu sei que é um conjunto genial e orgulho-me dele.
Mais fácil é logar a adesão do leitor à ideia de que há, ao longo destes quase cinco anos que levo de blogosfera, meia dúzia de posts que não me envergonham: este e este costumam ser citados como exemplos. Apesar disso, não são inolvidáveis nem justificam que faça um back-up do blogue, prevenindo a sua eventual perda. Nunca o fiz. Não tenciono fazê-lo. Se alguma vez o blogue se perder, não se perde nada que seja uma perda. Como, de resto, sucede com quase toda a blogosfera..
Não sou um escritor repentista. O pensamento e a forma não me saem à primeira. Escrevo, re-escrevo, risco, deito fora e começo de novo. Pertenço àquele grupo de literatos que, numa entrevista a um jornal literário, poria um ar pungente e superior, confessando ser senhor de uma escrita sofrida. Acontece, porém, que não me tem sobrado grande tempo para pensar os posts. Saem quase ao correr da pena. Evidentemente, saem mal. Mas a crise económica caiu em cheio sobre a cabeça de algumas pessoas com quem colaboro profissionalmente e que, em contrapartida, me asseguram o pão. O meu trabalho duplicou. O meu stress centuplicou. O meu dinheiro diminuiu. A minha capacidade de blogar esfumou-se.
Se no passado houve aqui posts que não perdiam por ser esquecidos, no último ano não há um post meu que não seja uma perda ser lembrado. Objectivamente, o prémio da Patrícia não é merecido. Menos ainda no presente, do que no passado.
E eu fico incomodado, porque estas linhas são a confissão de um ingrato, de um eu que teima em ser apenas eu, ignorando a circunstância.

2009-07-05

Cinema ao domingo

Uma palavra brasileira engraçada por dia (Zekez Carvalho)

Bunda.

Um farol na praia da Luz: contributo para uma teoria dos limites

Durantes largos anos, joguei futebol com os amigos. Como é evidente, nunca o fizemos na rua, nem sequer no jardim do Marquês, aqui à minha porta. Usávamos o pavilhão do "Colégio dos Carvalhos" que reservávamos e pagávamos para o efeito.
Tenho três ou quatro colegas que gostam de golf. À falta dos grandes campos do Algarve e do Alentejo, não jogam na Avenida dos Aliados, usando os bueiros como buracos. Procuram os campos existentes no Norte: o Fojo, Miramar, Paramos ou, um pouco mais longe, Vidago.
Conheço também umas dezenas de pessoas que praticam ténis e nunca o fizeram na via pública, por cima dos carros estacionados a servir de rede. Recorrem aos cortes construídos na cidade.
E até o meu amigo Paulo Pinto, quando decidiu trocar a monótona vida que levava no BCP pela paixão que nutria pelo squash, não foi para a rua bater bolas contra as paredes dos edifícios. Tomou conta da exploração do parque desportivo do Monte Aventino.
Só Rui Rio não parece perceber que não se incomodam milhares de pessoas durante uma semana inteira, cortando-lhes os acessos às residências, impedindo-as de chegar a horas ao trabalho, obrigando-as a ficar nervosas e stressadas durante horas a fio, em filas intermináveis de automóveis, apenas para satisfazer uma fantasia pessoal em torno da sua paixão particular pelas corridas de calhambeques.
A fantasia de Rio é legítima, naturalmente, mas ele deve concretizá-la num autódromo, como faz toda a gente. Não, no meio da via pública.
Eu também tenho uma paixão por faróis e não me passaria pela cabeça, se fosse presidente da Câmara Municipal do Porto, mandar construir um na praia da Luz. Apesar de sentir essa tentação.
Na sexta-feira, vi uma ambulância em marcha de urgência demorar aí uns dez minutos para fazer os cem metros que a separavam do hospital Pedro Hispano, em Matosinhos. A rua estava atulhada de carros que normalmente usam a Avenida da Boavista e as vias circundantes para entrar e sair da cidade. Só que na sexta não o podiam fazer, andavam lá os calhambeques de Rui Rio a poluir ainda mais o ar.
A sorte de Rio é que esta gente não vota no Porto.
Também é verdade que - apesar do pecadilho das corridas de calhambeques e de avionetas - Rui Rio é o melhor Presidente da Câmara que a cidade teve, pelo menos, desde o 25 de Abril.

Insónia

"Lanza del Vasto", "Produções Lança Moreira", "Lantanídeos": todas estas memórias me vieram à cabeça em mais uma noite de insónia e febrilidade doentia, abundante em pesadelos dominados - vá-se lá saber porquê - pela letra "L".
Valeu-me, às quatro da manhã, a pesquisa no Google subordinada ao tema "long legs".

2009-07-04

Alma FCP

Foi o bom e o bonito no último jantar, no Zé Bota. Tive que me meter entre RPS e Zekez, para que este último não fosse vítima da fúria homicida daquele.
A história conta-se em poucas palavras: RPS referiu um jogo qualquer em que um tal Caneira terá pontapeado na cara o jogador Hulk, do Futebol Clube do Porto, acabando expulso.
Zekez comentou que se lembrava desse jogo e que a expulsão tinha sido justíssima.
Acredito que o tenha feito inadvertidamente e sem intenção de ofender, mas ó palavra que disseste! RPS saltou logo da cadeira disposto a rebentar Zekez todo, não me tivesse eu interposto entre os dois.
Como portista exemplar que é, RPS não pode admitir que um benfiquista ou um sportinguista reconheçam com fair play a justiça de uma vitória do Porto ou de uma decisão de um árbitro a favor do clube da invicta. Não pode haver maior ofensa! Fazê-lo é negar a essência da alma FCP.
O adepto portista não quer ganhar nem sente prazer nenhum na vitória. Ele gosta é de saborear o desgosto de quem perde. Sempre como se fosse uma vingança exercida a frio sobre o derrotado. Se o derrotado não colabora, não se espoja no chão revoltado a comer a terra e, antes, reconhece a justiça e o mérito da vitória do FCP, o adepto portista morre de raiva. E reage em fúria, como RPS.
Zekez devia sabê-lo. A sorte dele é que estava lá eu e segurei RPS. Não fosse a minha interposição providencial e não sei o que teria acontecido.

Cansado

Com a nação em estado de choque por causa de um par de chifres oferecido pelo ministro da economia a Bernardino Soares (ou, de modo mais generoso e universal, a todo o PCP), a SEDES debateu pela milionésima vez a transcendente questão da qualidade da nossa democracia. Como prova da infinita caridade cristã que usam nas suas vidas, os membros da SEDES acederam, de novo, a derramar sobre as nossas humildes e obnubiladas cabeças de portugueses a graça refulgente da inteligência sublime com que Deus os iluminou.
Fazendo aquilo que melhor sabem fazer e que têm feito nos últimos duzentos anos, os economistas da SEDES fizeram o que fazem sempre: um diagnóstico. Concluíram o que concluem sempre: que o nosso problema é a poupança, a falta dela. Os portugueses, que são pobres e mal ganham para comer, não poupam. E isso está a hipotecar o nosso futuro. Enquanto não formos ricos e não pouparmos - advertem-nos com bondade paternal - vamos continuar pobres. Devíamos fazer como eles, os economistas da SEDES, e seguir o seu exemplo: ganhar, pelo menos, vinte mil euros por mês e pôr de lado metade.
Manuel Vilarinho, que não é da SEDES, está-se cagando.
Eu estou cansado. E com sono.

Exemplo

As eleições no Sporting Clube de Portugal já tiveram cenas deploráveis. As do Sport Lisboa e Benfica passaram de todas as marcas. Que bom ver que no meu clube os processos eleitorais sempre decorreram em clima de sã democracia!

2009-07-03

Uma palavra brasileira engraçada por dia (Zekez Carvalho)

Escuteiros-mirins.

Música à sexta-feira

Demitir-se??!!...



Por que raio se demitiu?
Teve uma descortezia. Pediu desculpas. Um ministro pediu desculpas em nome do Governo. O primeiro-ministro fê-lo também, mais adiante. Não chegava?
Não vejo que o episódio tenha a gravidade que lhe atribuiram. Nomeadamente, Paulo Rangel, um tipo que até admiro, e que teve uma intervenção deplorável na sequência do episódio.
O que se passou é, contudo, um sinal de "fim de festa". O PS até pode ganhar as eleições, mas este Governo está a fazer as malas.
Este episódio, há dois anos, ficaria pelas desculpas.
Se este episódio se tivesse dado hoje com Teixeira dos Santos, não haveria demissão.
Está tudo a fazer as malas. Estão quase todos com a cabeça noutro lugar.
Não há dúvidas: o ciclo fechou-se.

A frase da noite

"As minas de Aljustrel têm rendido mais em factos políticos do que em minério"
(Arlindo do Rego, à mesa, no Zé Bota)

2009-07-02

Comprem-nos a todos! (ou o megálomano delírio de Florentino Perez)

Na sua primeira passagem pela presidência do Real Madrid, aí por volta da viragem do século, Florentino Perez seguiu uma estratégia que ficaria conhecida por "Zidanes e Pavones", o que significava uma aposta do clube em contratar, por um lado, rutilantes estrelas do universo futebolístico para as posições de jogadores criativos da equipa (como o médio de ataque francês Zidane), os quais coexistiriam com jovens espanhóis da "cantera" do clube nas posições mais defensivas ou de recuperação de bola (como o defesa central Pavone).
E desatou a pagar transferências milionárias à razão de uma por ano (a par com outras menos exorbitantes).
Figo foi o primeiro, a que se seguiriam, à razão de um por ano, Zidane, Ronaldo (Nazário de Lima, o brasileiro gordinho com dentuça) e Beckham (não tenho a certeza se a ordem cronológica está correcta.
Tal estratégia ainda deu frutos desportivos ao princípio e terá dados frutos comerciais até ao fim.
O dinheiro para a executar veio essencialmente da venda de todos os terrenos onde estavam implantadas as instalações desportivas do Real Madrid, com excepção do estádio Santiago Barnabeu que se manteve no seu sítio, venda essa que os poderes públicos madrilenos autorizaram apesar de servir para construção imobiliária desenfreada no centro da cidade.
Mas, a dado passo, a vaidosa megalomania de Perez começou a empancar. Como o vitorioso treinador Vicente del Bosque, apesar de competente, tinha aspecto de bandido mexicano tratou de substituí-lo pelo fotogénico e professoral Carlos Queirós, que rapidamente começou a perder, de resto uma das coisas que melhor sabe fazer na vida.
Também venderam o médio defensivo francês Makelele para o Chelsea, desiquilibrando completamente o meio-campo.
E os jogadores mais célebres, então cognominados de "galáticos" (!), passavam a semana em acções promocionais e em viagens enquento os colegas menos mediáticos treinavam. Mas nos jogos, essas vedetas tinham de jogar em detrimento dos colegas que suavam nos treinos.
Vender camisolas aos milhares em países asiáticos emergentes não compensava as derrotas que começaram a surgir, Perez foi corrido do clube e os "galácticos" foram terminando as carreiras, ou sendo vendidos uns mais ao desbarato que outros..
Passaram, então, alguns anos durante os quais o Real Madrid passou a ganhar campeonatos de Espanha mas não conseguiu voltar a ganhar a Liga dos Campeões.
Algumas guerras directivas com escândalos à mistura e uma insidiosa e obsessiva campanha do Jornal "Marca" forçaram o regresso de Florentino Perez à presidência do clube.
Fiel ao seu estilo, prometeu e cumpriu a retoma da antiga estratégia, desatando a comprar jogadores famosos. Mas com duas suicidárias diferenças: desta vez não houve venda de terrenos para construção, mas sim um vultuosos empréstimo bancários garantido pelas receitas televisivas futuras de uma quantidade de anos, logo usado para custear as transferências; e em vez de contratar um jogador famoso pora ano resolveu contratá-los todos de uma vez: Cristiano Ronaldo, por um valor absurdo, Káká e Benzema - até agora; mas já se anunciam David Silva (à falta de Villa, que o Valência recusa vender para Madrid, em obstinada resistência regionalista), Xabi Alonso e até Ribery (que o Bayern de Munique jura não vender por preço algum).
Florentino Perez enlouqueceu por completo.
Falo sério. Por mais milhões de camisolas que venda nunca conseguirá retorno financeiro destes dispêndios. Desportivamente, estas vedetas de cabeça oca vão transformar o clube numa feira de vaidades. Além disso como coexistirão com os jogadores já famosos existentes no plantel? Com Raul, Casillas, Snejder, Van Der Vaart, Roben, Huntelaar, Diarra, Gago, Higuain... claro que o clube pode vender alguns destes - se eles aceitarem. Mas ainda assim tantos choques de egos vão dar mau resultado.
O Real Madrid já estará mesmo em situação de falência técnica.
Nunca recuperrá o que gastou, nem perto disso.
Desportivamente vai fracassar. O treinador escolhido para pastorear este rebanho de primas donas, Manuel Pellegrini, nunca conseguirá formar um colectivo sério com esta matéria humana de carcterísticas incompatíveis e desencontradas.
Florentino Perez ficará um dia conhecido como o coveiro do Real Madrid. Todos os patetas que dizem coisas como "Cristiano Ronaldo merece o que vai ganhar. Eles dão espectáculo e por isso têm de ser pagos" ignoram ou olvidam que o espectáculo a que se referem não gera receitas nada comparáveis com os custos exorbitantes que o inflacionaram. É, pois, globalmente deficitário.
E o espectáculo produzido não seria de qualidade inferior com gastos dez vezes menores - ainda assim, os seus intérpretes seriam generosamente remunerados.
Até quando vai durar este despautério é que não sei.
Mas os madridistas e a quadrilha dos empresários de jogadores (espécie de parasitas milionários que pululam por aí) deliram de alegria. Por agora.

Uma palavra brasileira engraçada por dia (Zekez Carvalho)

Baita.

Ainda o São João está fresco e já a cidade se prepara para novo mergulho na sua memória

2009-07-01

Um recado de G. K. Chesterton para o Eng. Jardim Gonçalves

“ Haveis de ouvir, constantemente, em todas as discussões acerca de jornais, companhias, aristocracias ou partidos políticos, o argumento de que o homem rico não pode ser subornado.
A verdade, porém, é que o homem rico é e tem sido já subornado. E essa é, exactamente, a razão por que ele é rico.
O ponto principal para o Cristianismo é que um homem que depende do luxo e do prazer é um homem corrupto, espiritual, política e financeiramente. Há uma coisa que foi dita por Cristo e tem sido repetida com uma espécie de feroz monotonia por todos os santos cristãos: ser rico é estar em particular perigo de naufrágio moral.
(...) Não é certamente não-cristão revoltarmo-nos contra os ricos ou submetermo-nos a eles. Mas é incontestavelmente não-cristão confiarmos nos ricos e considerá-los como moralmente mais dignos de confiança que os pobres.
Um cristão pode, firmemente, afirmar: respeito aquela categoria de homem, embora ele se deixe subornar. Mas um cristão não poderá dizer, como dizem todos os homens modernos ao almoço e ao jantar: um homem daquela categoria nunca se deixaria subornar.
De facto é uma parte do dogma cristão que qualquer homem, e em qualquer categoria, se pode deixar subornar. Esta é uma parte do dogma cristão e, por uma curiosa coincidência é, também, uma parte da conhecida história humana. (...)
Na melhor utopia, eu tenho de estar preparado para a queda moral de qualquer homem, em qualquer posição e em qualquer momento, e, especialmente, para a minha queda, da minha posição, neste momento.”
(G. K. Chesterton)

Uma palavra brasileira engraçada por dia (Zekez Carvalho)

Jarbas (na acepção de motorista).

Efeitos secundários do xanax

Cansado, irritado, nervoso, com insónias, tomo meio xanax, para dormir.
Acordo há pouco e ligo a televisão na quatro. No ecran surge Florentino Pérez a anunciar, diante de um estádio completamente cheio e em delírio, um nome muito comprido que depois se reduz a uma onomatopeia: Kaká. Um miúdo entra em campo vestido de branco e nas bancadas há gente que desmaia de emoção. O miúdo jura ser, desde pequenino, do Real.
Enjoado, mudo para a um.
O monitor ilumina-se e vejo um moçoilo um bocadito mais gordo do que Kaká com uma faixa à frente do peito que diz: "sou do Benfica". É - sei-o depois pelo locutor - Xavier Saviola. Parece que «Benfica» foi a primeira palavra que disse, quando aprendeu a falar.
Sei que todas estas visões são puros delírios e que nada do que imagino ter visto tem realidade. Só uma mente sob efeitos de drogas poderosas poderia ter visões com estádios de futebol a abarrotar de gente, apenas para ver um jogador que não vai jogar, mas tão só dizer coisas tão absurdas como que está muito feliz por vestir uma camisola e que o Benfica é candidato a ganhar qualquer coisa.
São alucinações. Não volto a tomar xanax.

2009-06-30

Uma palavra brasileira engraçada por dia (Zekez Carvalho)

Estouro da boiada.

As causas da semana

Estranho mundo este!
O Irão era, há uma semana atrás, o centro do mundo e das causas. Ali travava-se o eterno combate pela liberdade e os amigos das causas – com o ar de sofrido heroísmo que usam adoptar - enviavam por telemóvel e twitter mensagens emocionadas com juras de eterna resistência e solidariedade. Recordavam, lacrimejantes, Tianamen e gritavam que nunca mais nada seria igual no médio oriente. Depois, felizes consigo mesmos pela nobreza demonstrada, acabavam a sonhar democracias obâmicas e cantantes à mesa do café. Que estivessem a apoiar um bandido como Mousavi, não os comovia nem impressionava.
Agora, passada uma semana, o Irão já só rende umas linhas nas páginas interiores dos jornais de referência. E sem primeiras páginas, os amigos das causas – que abundam em causas, mas não em perseverança – desistem.
Na comunicação social, o tema passou a ser o golpe de Estado nas Honduras.
Ninguém, evidentemente, quer saber das Honduras para nada. Tirando a indicação de uma zona vaga que vai da cidade da cidade do México até Punta Arena, ninguém sabe sequer indicar num mapa a localização exacta das Honduras. Ninguém sabe se são uma ilha ou se fazem parte do continente. Ninguém sabe se foi colonizada por franceses, holandeses ou espanhóis. Ninguém que tenha ouvido alguma vez falar em El Salvador, San José ou Manágua ouviu jamais falar em Tegucigalpa.
As Honduras são uma simples abstracção. Talvez com pretos e índios.
Mas são uma abstracção que nos devolveu a nostalgia do golpe de estado.
Depois da queda do muro de Berlim, acabou a tradição do golpe de estado. É certo que em África os dirigentes continuaram a matar-se com generosa e universal equanimidade. Mas em África não há golpes de estado. Os golpes de estado pressupõem um Estado e na África dos golpes (na Guiné-Bissau, por exemplo) isso não existe. Só existem matanças. Generalizadas e sem critério.
O bom golpe de Estado, palaciano, interno, promovido pelo chefe das forças armadas designado na semana anterior pelo presidente depois deposto pelo golpe, isso desapareceu. Mesmo na América Latina onde a tradição atingiu as suas melhores expressões, a golpada foi substituída pela trampolinice eleitoral constitucionalizada. Asséptica e sem sangue. Nas Honduras o que fascina é precisamente isso: que a preparação de uma trampolinice democrática constitucionalizável tenha degenerado no golpe de estado clássico.
Mas a coisa não promete. Pelas reacções dos governos ocidentais, para a semana as Honduras já nem nas páginas interiores serão notícia.
Talvez Julho se inicie com a causa da Birmânia, de novo. Pelo menos, eu proponho a Birmânia. Está a começar o julgamento de Aung San Suu Kyi e a Birmânia é uma boa causa antes de férias.

Parece que o meu tempo é de dúvidas

A caminho da Católica, cruzo-me com Artur Santos Silva que passeia sereno de bicicleta pela Foz. Não é a primeira vez que o vejo a passear, mas hoje dou comigo a colocar-me uma dúvida: se um banqueiro reformado, laico e republicano pedala tranquilo e anónimo pelas ruas da cidade, que raio de patifarias terá feito o outro banqueiro reformado, opus, pio e tresandando a autoproclamada santidade, para temer pela vida e necessitar de 40 seguranças a vigiá-lo?

2009-06-29

Luís Costa Correia ou os insondáveis desígnios da Providência

Na minha infância, o mundo era redondo e deformado para sul. Comportava a Madeira, Cabo Verde e São Tomé; comportava Bissau, Bolama e Bafatá; Luanda e Lourenço Marques; o caminho de ferro de Benguela e o rio Zambeze; Nampula e os Montes Namuli; atingia Goa, Damão e Diu, roubadas por patifes indianos; e tinha o seu ponto mais alto no Pico do Ramelau, "que tão português és tu, Joaquim, que nasceste no Minho, como tu, Carlitos, que nasceste na longínqua Timor". Incluía ainda a memória do Brasil que um rei traidor tinha desligado da mãe pátria e a glória dos dois maiores aviadores de todos os tempos (que, absurdamente e revelando uma confrangedora ignorância, o meu autor de referência na matéria, John W. R. Taylor, não mencionava na sua obra Pioneiros da aviação, da Livraria Civilização Editora, tendo o capítulo dedicado a Gago Coutinho e Sacadura Cabral, da autoria de Sarmento Beires, sido nela artificialmente encaixado) que haviam unido de novo, pelo sextante e pelo Cruzeiro do Sul, Portugal às terras eternamente lusas de Vera Cruz.
A Norte e a Leste, também havia mundo. Mas acabava em Vigo e em Salamanca. Para lá desses lugares mágicos de caramelos e fronteira, era a França e a Europa, de onde vinham em Agosto os emigrantes, em grandes Renaults e Simcas flamejantes, e contavam de viagens em auto-estrada, com áreas de serviços e hotéis repletos de néons que eu sonhava amplificações gigantes do café-bar da Mobil, na Estrada Nacional número um, no Vale do Grou, entre Barrô e Aguada de Cima.
De Paris, de Bruxelas, de Amesterdão, do Luxemburgo, chegava-nos ao fim-de-semana, José Augusto e os “Domingos na Europa”. Os europeus eram felizes e organizavam feiras de flores a preto e branco, e passeavam de bicicleta por avenidas fluviais, e compravam baguetes estaladiças em padarias de bairro, e as criancinhas europeias brincavam em família com barquinhos à vela, nas margens de lagos citadinos que bordejavam magníficos jardins encantados. E eu não sonhava, porque em Barrô não havia baguetes nem lagos e o tio Abel padeiro só vendia “bicos” e uma vez o tio Fernando comprou-me na Costa Nova um barquinho à vela e a vela era de plástico.
Depois, Salazar morreu, o homem chegou à Lua e houve o vinte e cinco de Abril.
Em 1978, a memória viva do PREC, as ilusões perdidas do Império, as más companhias e a leitura pouco recomendável da revista “Democracia e Liberdade” converteram-me às veredas impérvias do europeísmo e do mercado comum.
Li Bela Balassa. Acreditei nas virtudes salvíficas da televisão privada e da adesão à CEE.
Por uma tarde chuvosa de Dezembro, entrei no gabinete do Professor Baptista Machado com a ideia firme de sair de lá com o seu apoio à criação de um Instituto de Estudos Europeus. Recebeu-me bem disposto, elogiou o meu empenho de caloiro e esclareceu-me que os seus devaneios literários não abrangiam o jurídico. A ordem comunitária era uma fantasia e antes de fantasiar o Direito, eu devia, como ele, estudá-lo.
Foi a minha primeira lição de União Europeia.
A seguir tive muitas outras. Esqueci-as todas, menos a última. Recebi-a num jantar no Círculo Universitário do Porto, no Campo Alegre, em 1999. Deu-ma o Comandante Luís Costa Correia.
Europeísta convicto e senhor de uma inteligência e de um espírito crítico superiores, o Comandante Costa Correia não vendia a inteligência nem abdicava do espírito crítico a favor da Europa. Funcionário europeu, ao contrário da maioria dos seus colegas, não funcionava na Europa. Pensava a Europa. E a pensá-la ensinou-me, com argumentos irrebatíveis e noções elementares de geo-estratégia, que não haveria nunca Europa alguma sem uma política de segurança e de defesa comum.
Suspeito que os dois sabemos que essa política nunca existirá e que, por isso, falar da Europa será sempre falar da fantasia que denunciava o Professor Baptista Machado. Mas isto sou eu a desejar que ele fosse, como eu, eurocéptico.
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Há quatro ou cinco noites atrás, por volta das quatro e meia da manhã, acordei com o nome Paiva Boléo a bailar-me no cérebro. Os apelidos remetiam-me para Coimbra e talvez para uma ou outra leitura filológica há muito esquecida. Na net encontro uma biografia do velho professor e descubro que em 1984 festejou com a família os 80 anos de vida. A missa foi celebrada pelo filho dominicano.
Decido fazer um post a perguntar por este filho. Antecedo a questão de uma outra sobre Rogério Palhau, um antigo colega de quem nunca fui amigo, com quem falei duas ou três vezes, no máximo, e que me impôs ao xadrez a derrota mais humilhante da minha vida. Faço-a seguir de uma dúvida sobre Matias Samouco, um nome que inventei na hora.
Espantosamente, o post é comentado pelo Comandante Costa Correia.
Insondáveis são os desígnios da Providência.
A divindade põe-me em sonhos o nome Paiva Boléo na cabeça, para que eu escreva um post que traga do nada o Comandante Costa Correia e me permita redimir um infinito remorso que há dez anos me acompanha: o de nunca lhe ter dito obrigado; o de nunca lhe ter dito que a sua inteligência me emocionou e cativou; o de nunca lhe ter dito que o seu nome figura entre nomes estimáveis daqueles a quem chamo mestres.
Este post é também uma explicação ao Paulo e uma narrativa sobre o processo caótico de formação de um post.

Uma palavra brasileira engraçada por dia (ZekezCarvalho)

Bóia (na acepção de comida).

2009-06-28

Cinema ao domingo

Da pré-época

Ele envia-me uma sms informando-me de que o Benfica contratou Saviola.
Ligo-lhe horas depois. Encontro-o extasiado com Saviola. "Grande jogador!", diz, em tom quase místico.
Mostra-se entusiamado com Jorge Jesus. Faz-lhe os maiores encómios. A uma qualquer inervenção minha entra numa espiral de ataques violentos ao FC Porto. Questiona a legitimidade de todos os títulos, de todas as vitórias. Arrasa o préstimo de todos os jogadores do FCP - actuais e passados. Reproduz, em volúpia, o discurso de todos os vieiras, de todos os delgados e farinhas da bola. Debita girândolas fantasiosas de golos anulados, penalties perdoados, cartões não exibidos, livres inventados.
"Saviloa, Saviola, Saviola..."
"Jesus, Jesus, Jesus..."

"Quem não tem amigos benfiquistas assim?", pergunta-se-á.
Eu tenho amigos sportinguistas assim!

Uma palavra brasileira engraçada por dia (Zekez Carvalho)

Guri (alguém me explica se o feminino é "guriza" e qual a diferença para "moleque" ?)

2009-06-27

Nunca percebi por que razão não é "Jerusalem" o hino de Inglaterra, mas o abjecto "God Save.."

And did those feet in ancient time
Walk upon England's mountains green?
And was the holy Lamb of God
On England's pleasant pastures seen?
And did the Countenance Divine
Shine forth upon our clouded hills?
And was Jerusalem builded here
Among these dark Satanic mills?
Bring me my bow of burning gold:
Bring me my arrows of desire:
Bring me my spear: O clouds unfold!
Bring me my chariot of fire.
I will not cease from mental fight,
Nor shall my sword sleep in my hand
Till we have built Jerusalem
In England's green and pleasant land.

William Blake

UMA MEMÓRIA AO SÁBADO: Grandes Momentos do Séc. XX

Munich 1972 Olympics Massacre

Outra dúvida existencial

Se eu tivesse agora que fundar uma associação recreativa e desportiva local, que nome lhe devia dar? "Alcatronhenses" ou "Alcatrolhenses"?

2009-06-26

Três dúvidas existenciais

O que será feito de Rogério Palhau?
E do padre dominicano, filho do Doutor Paiva Boléo?
E de Matias Samouco?

Uma palavra brasileira engraçada por dia (Zekez Carvalho)

Torta-de-Juá-de-Lobo.

Música à sexta-feira

2009-06-25

Do Palácio de Cristal

No início dos anos 80, à falta de Pavilhão Atlântico, o velho estádio de Alvalade foi frequentemente usado para grandes concertos de estrelas internacionais da música pop que aí iniciavam ou terminavam as suas digressões europeias.
Por esse tempo, uma girls band brasileira, as “Frenéticas”, conhecia um relativo sucesso em Portugal com o tema de uma novela qualquer que passava no horário nobre RTP. “Prazê em conhecê, somos às tais frénétchicas” – dizia a letra da cançoneta.
Embaladas pelo êxito, as “Frenéticas“ decidiram dar um concerto no Porto, no demolido pavilhão “Américo de Sá”, ou que depois se chamou “Américo de Sá”. À hora de início do espectáculo, parece que se tinham vendido três bilhetes. A organização decidiu, por isso, abrir as portas a toda a gente que quisesse entrar. Entraram – disseram-me – 25 pessoas.
As “Frenéticas” não seriam, por certo, grandes figuras das cena musical, mas o incidente convenceu-me que o Porto era cidade para espectáculos intimistas, no Coliseu, no Rivoli ou (agora) na Casa da Música, mas dificilmente constaria dos roteiros das grandes tournées mundiais. De resto, no Porto, só me recordo muito vagamente de um concerto de Frank Sinatra a que não assisti, mas que não consta tenha sido memorável.
Vêm este prelúdio a propósito da esperada polémica que envolve já a remodelação do Pavilhão Rosa Mota e dos jardins envolventes.
Como habitualmente, há os que se opõem a toda e qualquer intervenção, seja de que natureza for, porque isso alterará a alma e o espírito do lugar. São os mesmos que já se opuseram à reformulação do “Jardim da Cordoaria” ou, mais recentemente, à intervenção na Avenida dos Aliados. Têm (legitimamente, de resto) uma visão estática dos espaços urbanos. Para eles, as cidades podem crescer para o vazio que normalmente as envolve, mas o já edificado é um adquirido intangível. Qualquer mudança de uma simples pedra da calçada é um crime de lesa-memória.
Não partilho desta visão radical. Sou conservador e não advogo nunca a mudança pela mudança. Mas, preservada a alma das cidades, entendo que estas devem evoluir e adaptar-se a cada tempo.
A verdade é que o jardim da Cordoaria não consubstanciava, ao contrário do que clamam os que se opuseram à intervenção, a fixação nostálgica de um passado romântico. Era penas um lugar infecto que afugentava o passante. Mesmo começando já a degradar-se, está muito melhor.
E a Avenida dos Aliados, se não está, só por si, muito melhor, pelo menos, livrou-se daqueles canteiros meio de gramão, meio de terra, onde cagavam os cães. Constitui hoje um espaço cheio de potencialidades. Basta aproveitá-las.
E o Palácio de Cristal? Que fazer dele?
À falta de grandes concertos multitudinários no Porto; transferidos os certames industriais para os espaços mais apetecíveis e adequados da AEP, na Feira e em Matosinhos; mudada (e bem) a Feira do Livro que no palácio só se fazia, para dizer que ali se fazia qualquer coisa, o pavilhão serve apenas, potencialmente, para espectáculos de circo e provas desportivas.
O circo é um espectáculo decadente que ninguém já quer ver. Qualquer tenda vendida no “Jumbo” ou no “Continente” tem capacidade para albergar todos os espectadores que buscam as velhas artes do malabarismo e da momice.
Os desportos de pavilhão, por sua vez, estão em decadência, em termos de público, que privilegia quase em exclusivo o futebol.
O hóquei em patins – que justificou a construção do pavilhão – foi um desporto feito pela rádio. A sua pouca televisibilidade matou-o. Quase ninguém lhe liga nada hoje em dia. Mesmo em Portugal, a sua pátria de eleição.
O andebol, o basquete, o voleibol, o futebol de salão, por sua vez, sendo modalidades que continuam a atrair algum público, atraem-no aos pavilhões dos clubes. Prescindem do Palácio. E a construção (ou reconstrução) de uma grande estrutura, para grandes competições internacionais que se pudessem realizar no Porto, de vinte em vinte anos, faz tanto sentido como a construção dos estádios do “Euro 2004”, em Aveiro, Leiria ou Faro.
Em suma, o povo do Porto, o povo do Norte de Portugal e do país inteiro, não dispensando com certeza os jardins do Palácio de Cristal nem a magnífica Biblioteca Almeida Garrett, dispensam o mamarracho do Pavilhão dos Desportos neles implantado.
Assim, o único investimento racional que nele se pode fazer é o dinheiro que se gaste a demoli-lo.

Uma palavra brasileira engraçada por dia (Zekez Carvalho)

Bonde. (já agora, alguém me explica qual a diferença para "ônibus"?)